Publicado em: 18 de março de 2026, às 8:55 (horário de Brasília)
Autismo e alimentação: estudo revela impacto profundo da seletividade na saúde infantil
Imagine uma criança que limita a própria alimentação a apenas alguns alimentos de cor branca, que rejeita vegetais verdes não pelo sabor, mas pela textura, e que transforma a hora da refeição em um momento de estresse e choro. Para milhões de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em todo o mundo, essa é a realidade diária. Uma nova revisão narrativa publicada na Revista Sociedade Científica mergulha fundo nesse desafio e expõe as consequências graves da seletividade alimentar para o desenvolvimento físico e emocional dessa população.
Conduzida pela pesquisadora Renata Santos da Cunha, a obra revisou 18 estudos primários internacionais e confirma o que muitos pais e especialistas já vivenciam na prática: a seletividade alimentar atinge entre 51% a 89% das crianças com TEA, um número expressivamente superior ao observado em crianças com desenvolvimento típico. O estudo não apenas quantifica o problema, mas também traça um mapa detalhado de como esse comportamento impacta o estado nutricional, a saúde gastrointestinal e a qualidade de vida desses pequenos e de suas famílias.
O paladar e o espectro: quando os sentidos comandam o prato
De acordo com a análise, a raiz da seletividade alimentar no autismo está profundamente ligada às questões sensoriais. As crianças não estão apenas “enjoadas” ou “frescas”; seus cérebros processam os estímulos dos alimentos de forma diferente. O cheiro, a cor, a temperatura e, principalmente, a textura dos alimentos podem ser percebidos de maneira avassaladora ou aversiva. Pesquisas citadas no artigo, como as de Ahumada et al. (2022) no Chile, mostram que 91,67% das crianças com TEA apresentam seletividade, com uma clara preferência por alimentos de cor branca e texturas previsíveis, como macias ou crocantes. Por outro lado, alimentos coloridos, verdes e misturados, como saladas e refogados, estão no topo da lista de recusas.
Essa restrição leva a um padrão alimentar preocupante. Os estudos compilados demonstram que crianças com TEA tendem a consumir muito mais alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares e gorduras, e muito menos alimentos in natura, como frutas, legumes e verduras. Pesquisas realizadas na Itália (Raspini et al., 2021) e no Líbano (Rouphael et al., 2023) corroboram esses achados, destacando um consumo excessivo de salgadinhos, biscoitos e refrigerantes, em detrimento de nutrientes essenciais.
Além do prato: as consequências para o corpo e a mente
A qualidade da dieta, obviamente, reflete-se no corpo. A revisão aponta para um paradoxo no estado nutricional dessas crianças: enquanto algumas apresentam baixo peso e atraso no crescimento devido à ingestão calórica insuficiente e restrita, uma parcela significativa enfrenta problemas de sobrepeso e obesidade. Um estudo espanhol (Molina-López et al., 2021) revelou que 18,4% das crianças com TEA estavam com baixo peso, mas 16,3% apresentavam obesidade. Quando a análise considerou o percentual de gordura corporal, o índice de obesidade saltou para alarmantes 47,5%. Na Turquia (Sengüzel et al., 2021), a taxa de obesidade encontrada foi de 28,3%, associada ao alto consumo de industrializados e ao baixo consumo de frutas.
As deficiências nutricionais são outra face dessa moeda. A ingestão inadequada de cálcio, ferro, zinco, vitaminas do complexo B e fibras é comum, abrindo caminho para problemas ósseos, anemia e disfunções metabólicas. A pesquisa de Tsujiguchi et al. (2020), no Japão, alerta que essa inadequação persiste da infância à adolescência, agravando os riscos à saúde a longo prazo.
O sistema digestivo também sofre. Os sintomas gastrointestinais, como constipação e dores abdominais, são queixas recorrentes, afetando até 88,9% das crianças, conforme estudo de Babinska et al. (2020) na Eslováquia. Os pesquisadores identificaram uma correlação direta entre a gravidade desses sintomas, a seletividade alimentar e a severidade dos comportamentos característicos do autismo.
A hora da refeição como campo de batalha
O momento de comer, que deveria ser de nutrição e afeto, frequentemente se torna uma fonte de tensão. A revisão documenta comportamentos atípicos durante as refeições, como agitação, alimentação muito rápida, dificuldades de mastigação (apontada por 60,3% das crianças no estudo de Leader et al., 2020, na Irlanda), episódios de engasgos, vômitos e até comportamentos disruptivos e agressivos quando um alimento não desejado é oferecido. Um estudo sul-africano (Viviers et al., 2020) descreveu cenas de crianças empurrando o prato, virando o rosto e gritando, demonstrando a intensidade da aversão sensorial e a necessidade de um manejo especializado.
Os pais, muitas vezes, sentem-se perdidos. A pesquisa de Rouphael et al. (2023) revelou que, para lidar com a recusa, pais de crianças com TEA recorrem com mais frequência a estratégias como forçar a criança a comer ou servir apenas o que ela aceita, o que pode reforçar o ciclo da seletividade e aumentar a frustração de ambos os lados.
Intervenção multiprofissional: o caminho para a mudança
Diante desse cenário complexo, as considerações finais do estudo são claras e assertivas: não há solução mágica nem tratamento isolado. A chave para mitigar os impactos da seletividade alimentar reside no acompanhamento por uma equipe multiprofissional. Nutricionistas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, psicólogos e pediatras precisam atuar em conjunto com a família para desenvolver estratégias individualizadas.
O objetivo não é apenas “fazer a criança comer”, mas sim ampliar gradualmente o repertório alimentar, respeitando suas limitações sensoriais, abordando as dificuldades motoras orais e criando um ambiente de refeição mais tranquilo e previsível. Incluir a criança no preparo dos alimentos, apresentar novos itens de forma lúdica e consistente e trabalhar a integração sensorial são algumas das abordagens promissoras mencionadas.
Ao sintetizar o conhecimento global dos últimos cinco anos, a autora Renata Santos da Cunha oferece à comunidade científica e ao público um panorama indispensável. A obra não apenas expõe a magnitude do desafio, mas ilumina o caminho para intervenções mais humanizadas e eficazes, capazes de transformar a relação da criança com o alimento e, por consequência, promover uma saúde mais robusta e uma qualidade de vida superior para toda a família.
Sobre a autora:
Renata Santos da Cunha – Universidade Santa Úrsula (USU), Rio de Janeiro, Brasil.
https://orcid.org/0009-0000-2000-0559
📍 Acesso à Pesquisa Original
A obra que deu origem a esta notícia é o artigo intitulado “O impacto da seletividade alimentar na saúde e desenvolvimento de crianças com TEA: uma revisão narrativa“, de autoria de Renata Santos da Cunha. Ele está disponível na íntegra no site da Revista, no link direto:
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