Pesquisa avalia potencial de microalgas e cianobactérias no tratamento de efluentes de biodiesel


Pesquisa avalia potencial de microalgas e cianobactérias no tratamento de efluentes de biodiesel

Publicado em: 24 de setembro de 2025

Um estudo inédito, conduzido por pesquisadores de instituições públicas mineiras e paulistas, investigou a viabilidade do uso de microalgas e cianobactérias para o tratamento da água de lavagem gerada na produção de biodiesel. Publicado na Revista Sociedade Científica, o artigo revela que, embora a técnica apresente potencial, os desafios relacionados à toxicidade do efluente exigem o desenvolvimento de novas metodologias para se tornar eficaz.

A pesquisa, intitulada “Avaliação do potencial de tratamento de água de lavagem de biodiesel com monoculturas e coculturas entre a microalga Chlorella sp. e a cianobactéria Oscillatoria sp.“, foi liderada pelo Dr. Witter Duarte Guerra, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), e contou com a colaboração de especialistas da UFU, do Instituto Luterano de Ensino Superior de Itumbiara e da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM).

O desafio dos efluentes do biodiesel e a promessa da bioremediação

A busca por fontes de energia renovável colocou os biocombustíveis, como o biodiesel, em evidência. No entanto, o processo de produção gera um efluente conhecido como água de lavagem, rico em resíduos de álcool (etanol ou metanol), ésteres e óleos não convertidos. Este resíduo possui alta carga orgânica e pH alcalino, representando um desafio para o descarte ambientalmente correto.

Nesse contexto, a bioremediação – uso de organismos vivos para degradar poluentes – surge como uma alternativa sustentável. Microalgas e cianobactérias são particularmente interessantes devido à sua capacidade de utilizar poluentes como nutrientes, ao mesmo tempo em que acumulam lipídios que podem ser convertidos em biodiesel, fechando um ciclo produtivo mais verde.

“Microalgas e cianobactérias, devido ao seu alto potencial de acumulação de lipídios, são consideradas promissoras para a produção de biodiesel. O cultivo conjunto desses microrganismos visa otimizar o uso de nutrientes e estimular o crescimento”, explicam os autores no estudo.

Metodologia: Testando a resiliência em cocultivo

Os pesquisadores isolaram as espécies Chlorella sp. (microalga) e Oscillatoria sp. (cianobactéria) e as cultivaram tanto individualmente (monocultura) quanto em conjunto (cocultura). O meio de cultura utilizado foi o efluente real de biodiesel, fornecido pela Universidade Federal do ABC (UFABC).

Foram testadas diferentes concentrações de três tipos de água de lavagem: à base de etanol, metanol e uma mistura de ambos. O crescimento celular foi monitorado por 21 dias por meio de espectrofotometria, medindo a absorbância da cultura.

“O objetivo era verificar se o sistema de cocultura na relação microalga-cianobactéria é capaz de sobreviver e tratar o efluente em questão, e subsequentemente verificar que quantidade de efluente este sistema tem capacidade de absorver”, detalha o artigo.

Resultados: Toxicidade do efluente supera a resistência dos microrganismos

Os resultados preliminares, no entanto, apontaram para uma baixa eficácia do tratamento. A maioria das culturas não sobreviveu além de uma semana quando expostas ao efluente puro ou em altas concentrações. A absorbância, que indica densidade celular, apresentou um pico inicial seguido de um declínio acentuado, sinalizando morte celular.

Os pesquisadores identificaram que a alta concentração de óleos e biodiesel no efluente, associada ao pH elevado (entre 9 e 10,5), tornou o meio altamente tóxico para os microrganismos. “A precariedade de nutrientes na água de biodiesel, onde as microalgas e cianobactérias não têm como obter os nutrientes necessários para suas necessidades bioquímicas básicas”, foi apontada como uma das causas.

Um fato visualmente marcante observado foi a separação de fases: a água de lavagem do biodiesel permaneceu na parte superior dos reatores, indicando que a biodegradação não ocorreu de forma satisfatória. Além disso, a morte das culturas levou à contaminação dos reatores por fungos, que encontraram um ambiente rico em matéria orgânica para se proliferar.

Considerações Finais e Próximos Passos

O estudo conclui que, nas condições testadas, o cultivo direto em água de lavagem de biodiesel mostrou-se inviável para a bioremediação e produção de biomassa com as espécies utilizadas. A sensibilidade da cocultura aos contaminantes presentes no efluente foi o principal obstáculo.

“É necessário implementar uma nova metodologia e verificar outras proporções para obter melhores resultados”, recomendam os autores. Isso pode incluir um pré-tratamento do efluente para reduzir sua toxicidade, o ajuste finissimo do pH ou a seleção de cepas de microalgas e cianobactérias mais tolerantes a condições extremas.

Apesar dos desafios, a pesquisa é um passo importante para entender os limites e as possibilidades da aplicação de coculturas em bioremediação de efluentes complexos, abrindo caminho para investigações futuras que possam tornar o processo de produção do biodiesel verdadeiramente circular.

Autores e Instituições Envolvidas

  • Witter Duarte Guerra – Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Ituiutaba-MG
  • Jaqueline Elise Garcia Chiesa – Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Ituiutaba-MG
  • Karolynne Gomes Albuquerque – Instituto Luterano de Ensino Superior de Itumbiara, Itumbiara-GO
  • Alexandre de Matos Martins – Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), Diamantina-MG
  • Lucas Matheus da Rocha – Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Ituiutaba-MG
  • Anizio Marcio de Faria – Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Ituiutaba-MG
  • Antônio Carlos Ferreira Batista – Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Ituiutaba-MG

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