Paciente com HIV supera rara coinfecção cerebral em caso reportado por pesquisadores brasileiros


Paciente com HIV supera rara coinfecção cerebral em caso reportado por pesquisadores brasileiros

Publicado em: 15 de setembro de 2025

Um caso clínico raro de coinfecção por neurocriptococose e neurotuberculose em uma paciente imunossuprimida por HIV foi detalhado em artigo publicado na Revista Sociedade Científica. O estudo, conduzido por pesquisadores de instituições paraenses, relata o sucesso do tratamento multidisciplinar que resultou na recuperação significativa da paciente.

A pesquisa, intitulada “Neurocriptococose e neurotuberculose em uma paciente imunossuprimida por HIV: Relato de caso de coinfecção do Sistema Nervoso Central“, destaca os desafios diagnósticos e terapêuticos enfrentados no manejo de infecções oportunistas do sistema nervoso central em pessoas vivendo com HIV/Aids (PVHA).

Contexto clínico e importância do caso

A infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) causa imunossupressão progressiva, predispondo os indivíduos a infecções oportunistas que afetam diversos órgãos, incluindo o sistema nervoso central. Tanto a neurocriptococose quanto a neurotuberculose são patologias definidoras de aids e representam causas relevantes de morbimortalidade entre PVHA, especialmente em pacientes com baixa contagem de linfócitos T CD4+.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (2024) e do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (2024), aproximadamente 39,9 milhões de pessoas viviam com HIV no mundo em 2023. No Brasil, entre 2007 e junho de 2024, foram notificados 541.759 casos de HIV, sendo 10,4% apenas na região Norte.

A coinfecção simultânea por essas duas condições neurológicas é considerada rara e impõe significativos desafios diagnósticos e terapêuticos, conforme explicam os autores do artigo. O reconhecimento precoce e o tratamento adequado são essenciais para modificar o prognóstico e prevenir sequelas neurológicas graves.

Detalhes do caso clínico

A paciente, uma mulher de 39 anos natural de Castanhal (PA), vivia com HIV diagnosticado em 2024 mas não mantinha adesão regular à terapia antirretroviral (TARV). Encontrava-se em situação de vulnerabilidade social, vivendo em situação de rua e com histórico de uso de substâncias ilícitas.

Em janeiro de 2025, a paciente começou a apresentar febre intermitente, cefaleia intensa, perda ponderal, astenia e fraqueza nos membros inferiores. Após várias consultas em unidade de pronto atendimento com tratamento apenas sintomático, seu quadro neurológico piorou significativamente, desenvolvendo hemiparesia esquerda em face, membro superior e inferior, afasia, desorientação e agitação psicomotora.

Internada inicialmente no Hospital Municipal de Castanhal, foi posteriormente transferida para o Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB), em Belém (PA), em março de 2025. Na admissão, apresentava-se em cadeira de rodas, com hemiparesia à esquerda, letargia e afasia moderada.

Investigação diagnóstica e descoberta da coinfecção

Os exames laboratoriais revelaram anemia microcítica hipocrômica, trombocitose, neutrofilia leve e eosinofilia discreta. O perfil imunovirológico mostrou carga viral elevada do HIV (1.690.000 cópias/mL) e CD4+ de 122 células/mm³.

A punção lombar e análise do líquido cefalorraquidiano (LCR) demonstraram aspecto incolor e límpido, pleocitose de 82 células/mm³ (99% mononucleares), proteína de 100 mg/dL e glicose de 46 mg/dL. O exame microbiológico foi fundamental para o diagnóstico: a pesquisa de antígenos capsulares para Cryptococcus spp foi reagente (CrAg), e o teste rápido molecular para tuberculose (TRM-TB) no LCR detectou traços de Mycobacterium tuberculosis.

A tomografia computadorizada de crânio evidenciou apagamento dos sulcos e cisuras corticais no hemisfério direito, mais pronunciado em região frontoparietal, associado a realce leptomeníngeo. Identificou-se ainda pequena lesão de realce anelar na região frontal esquerda. A tomografia de tórax demonstrou pequeno derrame pleural bilateral, sugestivo de processo infeccioso/inflamatório.

Abordagem terapêutica e evolução clínica

Diante do quadro clínico e laboratorial, foi iniciado tratamento para ambas as infecções oportunistas. A paciente recebeu anfotericina B lipossomal e flucitosina (fase de indução para neurocriptococose), seguido de fluconazol (fase de consolidação). Em paralelo, foi instituído o esquema antibacilar padrão para tuberculose do sistema nervoso central com Rifampicina, Isoniazida, Pirazinamida e Etambutol (RIPE), associado à corticoterapia com prednisona. Recebeu também profilaxia primária para Pneumocystis jirovecii com Sulfametoxazol-Trimetoprima.

Após duas semanas de tratamento, a paciente apresentou melhora clínica significativa dos déficits neurológicos, incluindo recuperação progressiva da capacidade de deambulação independente e força, além de melhora da afasia. Manteve estabilidade hemodinâmica e não apresentou sinais de hipertensão intracraniana.

Nova punção lombar realizada após a conclusão da fase de indução do tratamento antifúngico mostrou resposta parcial ao tratamento, evidenciada pela redução da celularidade liquórica (30 células/mm³) e negativação dos testes microbiológicos. A reintrodução da TARV foi realizada após algumas semanas de tratamento, com esquema contendo Tenofovir (TDF), Lamivudina (3TC) e Dolutegravir (DTG) em dose dobrada, respeitando as diretrizes clínicas para evitar a síndrome inflamatória da reconstituição imune.

A paciente recebeu alta hospitalar em boas condições gerais, mantendo a prescrição de manutenção do tratamento antifúngico com Fluconazol, continuidade do esquema antibacilar RIPE, profilaxia para Pneumocystis jirovecii e TARV. Foi encaminhada para acompanhamento ambulatorial com equipe de infectologia para garantir continuidade terapêutica e monitoramento clínico.

Considerações finais e implicações clínicas

Os autores destacam que a coinfecção por neurocriptococose e neurotuberculose, embora rara, pode ocorrer em pacientes imunossuprimidos e demanda alto grau de suspeição clínica. Este caso ilustra a importância do diagnóstico precoce, abordagem multidisciplinar e cuidado integral às PVHA, especialmente naquelas em situação de vulnerabilidade social.

A condução do caso evidenciou a relevância de uma atuação médica baseada em suspeição clínica, investigação minuciosa a partir de exames adequados e seguimento terapêutico conforme diretrizes atualizadas. Além disso, destaca-se a importância de medidas que assegurem não apenas a detecção e a terapia, mas também o seguimento ambulatorial contínuo e o suporte social, fundamentais para o controle da infecção pelo HIV e prevenção das complicações oportunistas.

Os pesquisadores concluem que, apesar de existirem relatos semelhantes na literatura, a associação de infecções oportunistas ainda é frequentemente negligenciada na prática clínica, especialmente em serviços com limitações diagnósticas. A rápida e positiva resposta clínica observada neste caso reforça que a abordagem precoce, a investigação minuciosa e a conduta terapêutica adequada são determinantes para modificar o prognóstico dos pacientes e prevenir possíveis sequelas neurológicas graves.

Autores e instituições envolvidas

O estudo foi realizado por pesquisadores de instituições de ensino superior do Pará – UFPA:

  • Ana Livia Chaves Vieira – Universidade Federal do Pará, Belém, Brasil
  • Esthefani Monique Rodrigues Macedo – Universidade Federal do Pará, Belém, Brasil
  • Marcus Paulo Rocha Libonati – Universidade do Estado do Pará, Belém, Brasil
  • Francisco Elivelton Ferreira de Andrade – Universidade Federal do Pará, Belém, Brasil

Publicação na Revista Sociedade Científica

O artigo foi publicado na Revista Sociedade Científica, volume 8, número 1, do ano 2025, disponível no site oficial da revista: https://www.scientificsociety.net/.

A Revista Sociedade Científica é uma publicação multidisciplinar que abrange diversas áreas do conhecimento, com foco especial em Ciências da Saúde. A edição atual (2025) está disponível para acesso e leitura, apresentando diversos artigos originais e relevantes para a comunidade científica.

Convidamos os leitores a conhecerem também a edição anterior (2024) da revista, bem como a utilizar a ferramenta de pesquisa na revista para explorar outros conteúdos de interesse.

Para acessar o artigo original completo:
Neurocriptococose e neurotuberculose em uma paciente imunossuprimida por HIV: Relato de caso de coinfecção do Sistema Nervoso Central

Mapa do site da Revista Sociedade Científica: https://www.scientificsociety.net/

Chamada para submissões de artigos

A Revista Sociedade Científica convida pesquisadores e profissionais da saúde a submeterem seus trabalhos para publicação. A revista abrange diversas áreas do conhecimento, com seções específicas para diferentes temáticas, conforme pode ser verificado nas edições de 2024 e 2025.

Para facilitar o processo de submissão, a revista disponibiliza um tutorial de 4 passos para publicar artigo científico. Além disso, os autores podem conhecer as vantagens de publicar na Revista, que incluem indexação em bases de dados, revisão por pares, ampla divulgação e impacto na comunidade científica.

Nova seção para capítulos de livros e resumos científicos

A Revista Sociedade Científica anuncia sua nova seção voltada para publicação de Capítulos de Livros e Resumos Científicos, disponível em: https://www.scientificsociety.net/livros-cientificos/.

Esta iniciativa, recentemente noticiada, representa uma oportunidade para autores consolidados em suas áreas expandirem sua produção acadêmica. A publicação de capítulos de livros científicos oferece vantagens significativas para autores que já possuem artigos científicos publicados, incluindo maior visibilidade, impacto acadêmico e contribuição para a disseminação do conhecimento especializado.

Convidamos os autores a conhecerem as vantagens de publicar Capítulos de Livros e Resumos Científicos detalhadas na notícia: Capítulos de Livros Científicos: Impulsionando a Carreira e o Conhecimento.

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