Exposição ao Ruído em Usinas de Reciclagem Coloca em Risco a Audição de Trabalhadores


Exposição ao Ruído em Usinas de Reciclagem Coloca em Risco a Audição de Trabalhadores

Publicado em: 01 de Setembro de 2025

Um estudo recente sobre ruído ocupacional publicado na Revista Sociedade Científica traz à tona uma realidade preocupante: trabalhadores de usinas de reciclagem estão expostos a níveis significativos de ruído que comprometem sua saúde auditiva e qualidade de vida. A pesquisa, intitulada “Saúde auditiva em catadores de usinas de reciclagem: estudo quantitativo transversal sobre alterações audiométricas e queixas relacionadas ao ruído”, avaliou 73 catadores de materiais recicláveis no Distrito Federal e identificou queixas como incômodo com o ruído (36,9%), prurido auricular (20,5%), dificuldade para escutar (17,8%) e zumbido (16,4%). Esses sintomas, muitas vezes subestimados, refletem danos que vão além da perda auditiva mensurável, afetando o bem-estar físico e mental desses profissionais.

A exposição ao ruído intenso é um problema grave em ambientes industriais, mas poucos estudos haviam focado especificamente nos trabalhadores de cooperativas de reciclagem – profissionais essenciais para a economia circular e a sustentabilidade urbana. Estes trabalhadores manuseiam máquinas como empilhadeiras, esteiras de triagem e equipamentos de moagem, que geram ruídos contínuos e de alta intensidade. Muitos deles, no entanto, não utilizam equipamentos de proteção individual (EPI) de forma adequada, aumentando o risco de desenvolver Perda Auditiva Induzida por Ruído (PAIR).

A metodologia do estudo incluiu a aplicação de questionários sobre sintomas auditivos e a realização de exames audiométricos na clínica-escola de Fonoaudiologia do UNIPLAN. Os resultados mostraram elevações significativas nos limiares auditivos, especialmente nas frequências de 6 kHz e 8 kHz, com piores resultados em trabalhadores com mais de 40 anos e com mais de 15 anos de exposição ocupacional. Mulheres apresentaram limiares auditivos mais elevados que os homens em várias frequências, com diferença estatisticamente significativa em 6 kHz – um dado que contraria a tendência usual na literatura e sugere a necessidade de mais investigações sobre fatores hormonais e sociocupacionais.

Funções como operação de empilhadeira, triagem e coleta foram as mais associadas a alterações auditivas. Em alguns setores, como o de moagem, os níveis de ruído chegaram a 110 dBA, muito acima do recomendado para conforto acústico (65 dBA), conforme estabelece a NR-17. Apesar de não ultrapassarem os limites de tolerância da NR-15, esses níveis são suficientes para causar desconforto, estresse e prejuízos cognitivos ao longo do tempo.

Além dos achados audiométricos, o estudo chama a atenção para queixas extra-auditivas, como tontura e plenitude aural, que impactam diretamente a qualidade de vida e a produtividade dos trabalhadores. Tais sintomas são frequentemente negligenciados em programas de saúde ocupacional, que prioritam apenas a perda auditiva “clássica”. A pesquisa reforça, portanto, a importância de uma abordagem holística e preventiva, que inclua educação em saúde, uso correto de EPI e implementação de Programas de Conservação Auditiva (PCA).

As considerações finais do estudo destacam a urgência de políticas públicas mais efetivas de vigilância em saúde do trabalhador, especialmente para categorias socialmente vulneráveis, como os catadores de materiais recicláveis. Os autores recomendam a realização periódica de exames audiológicos sensíveis – como emissões otoacústicas e audiometria de altas frequências – para detecção precoce de alterações, mesmo antes que estas se manifestem na audiometria convencional.

Este trabalho evidencia a necessidade de valorizar e proteger aqueles que atuam na linha de frente da reciclagem, assegurando não apenas sua saúde auditiva, mas também sua dignidade e bem-estar integral.


Autores do Estudo:
– Juliana Maria Soares Cavalcante (Universidade de Brasília)
– Ruan Gomes Caetano (Centro Universitário Planalto do Distrito Federal)
– João Pedro Brandão Fernandes (Centro Universitário Planalto do Distrito Federal)
– Giovanna de Sabóia Bastos (Centro Universitário Planalto do Distrito Federal)
– Isabella Monteiro de Castro Silva (Universidade de Brasília)

Publicado na:
Revista Sociedade Científica – Volume 8, Número 1, 2025
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Leia o artigo completo em:
Saúde auditiva em catadores de usinas de reciclagem: estudo quantitativo transversal sobre alterações audiométricas e queixas-relacionadas-ao-ruído


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