“Não é inofensivo”: estudo brasileiro revela mecanismos da EVALI, a grave lesão pulmonar ligada aos cigarros eletrônicos


 

“Não é inofensivo”: estudo brasileiro revela mecanismos da EVALI, a grave lesão pulmonar ligada aos cigarros eletrônicos

📅 Publicado em: 13 de abril de 2026 – 19h55

🔍 Igor Castagnetti Silva, Letícia Marchi Kieling e colaboradores publicaram na Revista Sociedade Científica uma revisão narrativa que conecta o uso de cigarros eletrônicos à EVALI – lesão pulmonar aguda que já configura epidemia nos Estados Unidos e acende alerta no Brasil. O estudo mostra que o acetato de vitamina E, solventes tóxicos e partículas ultrafinas desencadeiam inflamação intensa, mesmo em jovens. “Histórico de vaping + exclusão de outras causas = forte suspeita de EVALI”, destacam os autores, reforçando a urgência de políticas públicas e diagnóstico precoce.

O consumo de cigarros eletrônicos, muitas vezes comercializado como alternativa “mais segura” ao tabaco convencional, tem sido associado a um espectro de doenças respiratórias graves. Uma delas, a EVALI (E-cigarette or Vaping Product Use-Associated Lung Injury), ganhou destaque mundial após surtos nos EUA em 2019. Agora, uma pesquisa brasileira publicada na Revista Sociedade Científica (edição 2026, volume 9) aprofunda a compreensão da fisiopatologia, sintomas e desafios diagnósticos dessa condição, com foco na realidade nacional. Embora o Brasil proíba a comercialização de dispositivos eletrônicos para fumar desde 2009 (Resolução ANVISA nº 46), o estudo alerta que já existem casos de EVALI registrados no país (CID-10 U07.0).

Por que a EVALI preocupa médicos e cientistas?

A pesquisa liderada por Igor Castagnetti Silva e equipe analisou artigos publicados entre 2020 e 2025 na base PubMed, utilizando descritores como “EVALI”, “pulmonary injury” e “e-cigarette”. Os resultados apontam que a inalação de aerossóis tóxicos provoca desde dano alveolar difuso até pneumonia em organização. Entre os compostos mais perigosos está o acetato de vitamina E, um éster sintético usado como espessante em cartuchos de THC (componente psicoativo da cannabis). “Em mais de 80% dos casos de EVALI nos EUA, os pacientes relataram uso de produtos contendo THC, muitos deles obtidos no mercado ilícito”, explicam os autores.

O estudo cita dados do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA), onde biópsias pulmonares de pacientes com EVALI evidenciaram macrófagos carregados de lipídios e pneumócitos lesionados. Em modelos animais, a exposição ao acetato de vitamina E vaporizado reproduziu o acúmulo anormal de lipídios nos macrófagos alveolares, comprometendo o surfactante pulmonar – essencial para evitar o colapso dos alvéolos durante a respiração. “O surfactante disfuncional pode levar a um acúmulo excessivo de lipídios e inflamação crônica, um dos achados marcantes no lavado broncoalveolar de pacientes com EVALI”, detalha a revisão.

Quadro clínico e desafios diagnósticos no Brasil

De acordo com os autores, os sintomas mais frequentes incluem dispneia (falta de ar), tosse, dor torácica, febre e sintomas gastrointestinais. Exames laboratoriais frequentemente mostram eosinofilia periférica e velocidade de hemossedimentação elevada. Já a tomografia computadorizada de tórax revela opacidades em vidro fosco bilaterais, com possível preservação subpleural. Importante: a EVALI pode mimetizar outras doenças como pneumonia lipoide, bronquiolite obliterante, asma grave ou até COVID-19. “Como não existe um teste diagnóstico específico para EVALI, o diagnóstico permanece baseado na exclusão de outras causas e na história clínica de uso de cigarros eletrônicos/vaporizadores nos 90 dias anteriores aos sintomas”, escrevem os pesquisadores.

Apesar da proibição no Brasil, dados da Vigilância de Fatores de Risco (Vigitel) mostram que o uso de cigarros eletrônicos persiste, especialmente entre homens jovens de 18 a 24 anos e pessoas com maior escolaridade. Embora a prevalência brasileira seja inferior à de países que liberam a venda, os autores alertam que “o percentual consideravelmente inferior não significa ausência de risco”. O estudo cita ainda a necessidade de os profissionais de saúde incluírem EVALI no diagnóstico diferencial de quadros respiratórios agudos ou subagudos, sobretudo em adolescentes e adultos jovens.

Fisiopatologia: o que acontece nos pulmões?

A lesão pulmonar na EVALI está relacionada à inalação de substâncias como metais tóxicos (níquel, estanho, chumbo), nitrosaminas, formaldeído e o já mencionado acetato de vitamina E. O estudo compara usuários de cigarros eletrônicos com fumantes convencionais: embora os níveis de monóxido de carbono e algumas nitrosaminas sejam menores nos vapers, ambos os grupos apresentaram elevação de metais pesados no sangue e urina. Além disso, em sistemas in vitro, a exposição de macrófagos ao condensado de vapor de cigarros eletrônicos induziu alterações celulares similares às observadas na DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica).

Em termos histopatológicos, o dano alveolar difuso foi identificado em oito de treze autópsias analisadas pelo CDC, e todas as dez biópsias pulmonares mostraram evidências de lesão pulmonar aguda ou subaguda. Os pneumócitos tipo I (responsáveis pelas trocas gasosas) e tipo II (produtores de surfactante) são particularmente afetados, comprometendo a mecânica respiratória. “A adição de acetato de vitamina E aos líquidos de vaping não é inócua; sua vaporização gera um irritante direto das vias aéreas, e o acúmulo lipídico nos macrófagos perpetua a resposta inflamatória”, resume a revisão.

Recomendações para a prática clínica e saúde pública

Os autores enfatizam que a EVALI deve ser tratada como diagnóstico de exclusão, mas sempre considerada quando houver histórico de uso de cigarro eletrônico. O tratamento de suporte inclui corticoterapia e oxigenioterapia, podendo evoluir para ventilação mecânica em casos graves. No entanto, o foco principal deve ser a prevenção: campanhas educativas e o endurecimento da fiscalização contra a entrada ilegal desses dispositivos no Brasil são estratégias centrais. “É indispensável que a comunidade científica, profissionais de saúde e a população não permitam flexibilizações em relação ao uso do cigarro eletrônico, uma vez que ele possui considerável potencial de prejudicar a saúde e sobrecarregar os sistemas de saúde”, destacam os pesquisadores.

O estudo também chama atenção para a necessidade de mais pesquisas nacionais sobre o tema, inclusive para aprimorar a capacidade diagnóstica e rastrear a prevalência real de EVALI no país. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) mostram que a prevalência do uso de cigarros eletrônicos manteve-se estável entre 2019 e 2023, mas há variações importantes por faixa etária.

📌 Destaques e expectativas

A EVALI já é uma epidemia nos Estados Unidos e uma preocupação emergente para o Brasil. O diagnóstico precoce depende da suspeita clínica e da exclusão de outras doenças pulmonares. “Mais estudos em território nacional são urgentes – seja para melhorar a capacidade diagnóstica, seja para orientar políticas públicas de prevenção ao consumo de cigarros eletrônicos em toda a população brasileira”, concluem os autores.

Autores e instituições

Igor Castagnetti SilvaUniversidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria-RS, Brasil

Letícia Marchi Kieling– Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria-RS, Brasil

Henri Silveira de Freitas – Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria-RS, Brasil

Daniel Marchi Kieling – Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria-RS, Brasil

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