CBD e THC na dor e no vício: o que dizem os cientistas da USCS?


CBD e THC na dor e no vício: o que dizem os cientistas da USCS?

Publicado em: 12 de janeiro de 2026 às 16:44 (horário de Brasília)

Um estudo de revisão integrativa publicado na Revista Sociedade Científica analisou criticamente o uso de canabinoides, principalmente o Canabidiol (CBD) e o Tetraidrocanabinol (THC), no tratamento de dois grandes desafios da saúde pública: a dor crônica e a dependência química. A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), conclui que, embora essas substâncias derivadas da Cannabis sativa demonstrem potencial terapêutico, as evidências atuais sobre sua eficácia e segurança ainda são insuficientes para recomendações clínicas amplas, principalmente devido à escassez de estudos robustos e de longo prazo.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a dor como uma experiência sensitiva e emocional desagradável. Quando essa condição persiste por mais de três meses, caracteriza-se como dor crônica, um fenômeno complexo que afeta milhões de pessoas globalmente, com impactos profundos na qualidade de vida e funcionalidade. No Brasil, estima-se que sua prevalência possa chegar a 76,17% em certos grupos. Paralelamente, a dependência química, especialmente por substâncias como o crack, é reconhecida pela OMS como um dos maiores problemas de saúde pública mundial. Dados do Relatório Mundial sobre Drogas de 2024 indicam que cerca de 64 milhões de pessoas vivem com transtornos relacionados ao uso de drogas, sendo que apenas uma em cada onze recebe tratamento adequado.

Diante desse cenário desafiador e das limitações das terapias convencionais – como os riscos de dependência e tolerância associados ao uso prolongado de opioides –, a busca por alternativas terapêuticas seguras e eficazes tem ganhado força. É neste contexto que os canabinoides entram em cena.

O que revelou a revisão integrativa?

As pesquisadoras realizaram uma extensa análise da literatura científica publicada entre 2018 e 2023, nas bases PubMed, SciELO e LILACS. Após aplicar critérios rigorosos de exclusão, 152 artigos foram considerados elegíveis para compor a revisão. A produção científica sobre o tema mostrou um pico de publicações em 2020 e 2022, com os Estados Unidos e o Reino Unido liderando as pesquisas, fato atribuído, em parte, à busca por alternativas frente à crise de opioides.

Em relação à dor crônica, especialmente a dor neuropática, a revisão encontrou evidências de baixa a moderada qualidade sugerindo que preparações à base de cannabis podem proporcionar um alívio modesto da dor em comparação com placebo, com benefícios mais perceptíveis no curto prazo (inferior a seis meses). Entidades como a National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine reconhecem esses efeitos positivos modestos, principalmente em desfechos relacionados à funcionalidade e qualidade de vida. No entanto, os estudos também destacam a ocorrência frequente de eventos adversos, como tontura, sedação, náuseas e, em casos mais graves, riscos de desenvolvimento de transtorno por uso de cannabis, psicose e comprometimento cognitivo. Esses efeitos colaterais muitas vezes levam à interrupção do tratamento, limitando sua efetividade prática.

Quanto ao uso no tratamento da dependência química, os achados são ainda mais preliminares. O CBD tem sido explorado como uma possível ferramenta de Redução de Danos, com base em seu potencial para modular mecanismos de compulsão e fissura (craving) em usuários de substâncias psicoestimulantes. Um ensaio clínico randomizado citado na revisão, realizado no Canadá, indicou que o CBD tem menor potencial de abuso em comparação com outras substâncias. Contudo, as autoras enfatizam que as investigações nessa área são limitadas, heterogêneas e carecem de robustez metodológica. Não há, até o momento, evidências suficientes para afirmar sua alta eficácia terapêutica ou para estabelecer protocolos farmacológicos consolidados.

Destaques

O estudo conclui que o canabidiol (CBD) se configura como uma alternativa terapêutica potencialmente promissora, mas ainda insuficientemente respaldada por evidências robustas de alta qualidade. Tanto para o manejo da dor crônica quanto para a dependência química, a escassez de estudos clínicos bem delineados, controlados e de longo prazo é a principal barreira.

As autoras destacam que as limitações regulatórias envolvendo o uso e a pesquisa com canabinoides em muitos países interferem diretamente no desenvolvimento científico na área. Portanto, embora o interesse clínico e científico seja grande, a incorporação consistente dessas substâncias na prática clínica de rotina ainda demanda muita pesquisa adicional.

Em resumo, a mensagem central da revisão é de cautela otimista: os canabinoides, em especial o CBD, abrem novas portas terapêuticas, mas é necessário cruzar o limiar dessas portas com o rigor da ciência, garantindo segurança e eficácia comprovadas para os pacientes.

Autores da Pesquisa

  • Beatriz Amorim Rodrigues da Silva – Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), São Paulo, Brasil.
  • Beatriz Patriota Saraiva Costa – Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), São Paulo, Brasil.
  • Clarice Santos Mariano Ribeiro de Carvalho – Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), São Paulo, Brasil.
  • Fernanda Maldonado Gomes Conceição – Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), São Paulo, Brasil.
  • Sandra Regina Mota Ortiz – Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), São Paulo, Brasil.

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Acesso ao Artigo Original

O artigo completo “Uso de canabinóides no tratamento da dor crônica e na dependência química: uma revisão integrativa da literatura” está disponível para leitura e download em:

https://www.scientificsociety.net/2026/01/uso-de-canabinoides-no-tratamento-da-dor-cronica-e-na-dependencia-quimica-uma-revisao-integrativa-da-literatura/

Mapa do Site da Revista Sociedade Científica: https://www.scientificsociety.net/

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