Estudo Revela Como Artesãos Assírios Trabalhavam em Equipe Há 3.000 Anos
Publicado em: 18 de novembro de 2025 às 17:23
Uma pesquisa publicada na Revista Sociedade Científica analisou discrepâncias em baixos-relevos assírios do Palácio de Nimrud e chegou a uma conclusão fascinante: as variações observadas nas esculturas não eram intencionais, mas sim o registro material do trabalho coletivo de diversas equipes de artesãos no século IX a.C.
O estudo, conduzido pelo pesquisador Jader Reis Monteiro da Universidade NOVA de Lisboa, focou na análise comparativa de representações do ser apotropaico Apkallu – figuras mitológicas protetoras – entre peças dispersas em museus ao redor do mundo, incluindo exemplares da Fundação Calouste Gulbenkian, Museu do Brooklyn e Museu de Arte Hood.
O ponto de partida: o Apkallu da Gulbenkian
A pesquisa teve como ponto de partida um baixo-relevo específico atualmente na posse da Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa. Esta peça, medindo 230cm x 140cm e esculpida em alabastro (também conhecido como mármore de Mossul), foi originalmente escavada no Palácio Noroeste de Nimrud por Sir Austen Henry Laylard em 1845 e adquirida pela fundação portuguesa em 1920.
O que chamou a atenção dos pesquisadores foram as inconsistências nos detalhes das rosetas – símbolos tradicionalmente associados à deusa Inanna/Ishtar – que adornam a figura do Apkallu. Enquanto algumas rosetas apresentavam oito pétalas (número simbolicamente ligado ao planeta Vênus, representação da deusa), outras variações apareciam no mesmo personagem.
Metodologia comparativa revela padrão
Para entender se essas discrepâncias tinham significado simbólico ou eram meras variações artísticas, Monteiro analisou catálogos de museus e peças disponíveis digitalmente, comparando minuciosamente os detalhes das figuras de Apkallu provenientes da mesma sala do palácio (Sala H).
Os resultados foram reveladores: enquanto o exemplar do Museu do Brooklyn apresentava rosetas consistentes com oito pétalas em todos os adornos, a peça do Museu de Arte Hood mostrava ausência completa da roseta em um dos pulsos e variações na forma de representação.
Teste decisivo: a sala do trono
O momento crucial da pesquisa veio com a análise do painel B-23, proveniente da sala do trono (Sala B) e atualmente no Museu Britânico. Este painel, localizado atrás do trono real em um espaço de máxima importância cerimonial, apresentava discrepâncias ainda mais significativas.
“As rosetas, presentes no Apkallu da esquerda, não estão sequer presentes na personagem semelhante à direita”, observa o pesquisador no artigo. Além disso, havia variações no número de pétalas entre as rosetas que apareciam e diferenças notáveis na proporção corporal entre as figuras.
Conclusões que reescrevem a história da arte assíria
As descobertas corroboram trabalhos anteriores, particularmente de Julian E. Reade, que já sugeria que “a qualidade do trabalho final, mesmo às vezes dentro dos limites de uma única placa, era muito variável”. O estudo demonstra que a produção dos relevos envolvia múltiplas equipes trabalhando simultaneamente em diferentes áreas do palácio.
Conforme explica Monteiro: “As variações observadas não devem ser interpretadas como erros ou falhas, mas sim como um registro material das realidades práticas de um canteiro de obras da antiguidade. O que à primeira vista parecia uma anomalia, revela-se uma fonte de dados crucial para a compreensão da natureza da produção artística palaciana assíria.”
A pesquisa oferece uma visão rara sobre a organização do trabalho artístico há quase três milênios, mostrando que mesmo em projetos de grande importância real, a produção em massa por diversas equipes resultava em variações naturais que hoje servem como testemunho dos processos criativos coletivos na Antiga Mesopotâmia.
Destaques da Pesquisa
- Análise de baixos-relevos do Palácio de Nimrud construído por Ashurnasirpal II (883-859 a.C.)
- Estudo comparativo de peças em museus internacionais
- Descoberta de que discrepâncias não eram intencionais
- Evidência material do trabalho coletivo de múltiplas equipes de artesãos
- Contribuição para compreensão dos processos criativos na Antiguidade
Autor e Instituição
Jader Reis Monteiro – Universidade NOVA de Lisboa – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Lisboa, Portugal
Publicação Científica
Este estudo foi publicado na Revista Sociedade Científica, volume 8, número 1, do ano de 2025. A revista mantém compromisso com a divulgação científica de qualidade em diversas áreas do conhecimento.
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Acesso ao Artigo Original
O artigo completo “O Apkallu da Gulbenkian e seus pares: Uma análise das discrepâncias entre os baixos-relevos do Palácio de Nimrud” está disponível em: https://www.scientificsociety.net/2025/10/o-apkallu-da-gulbenkian-e-seus-pares-uma-analise-das-discrepancias-entre-os-baixos-relevos-do-palacio-de-nimrud/
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