Crianças de até 4 anos têm 61% mais risco de morrer por pneumotórax no Brasil, revela estudo com 16 anos de dados
O pneumotórax, acúmulo de ar no espaço pleural que pode colapsar o pulmão, é uma emergência respiratória muitas vezes subestimada na pediatria. Agora, uma ampla pesquisa coordenada pela pesquisadora Carla Regina Marciniak Ferreira e colaboradores de instituições brasileiras traça o retrato mais detalhado já feito no País sobre os fatores que levam à morte de crianças hospitalizadas com essa condição. Os dados são alarmantes mas também trazem esperança: a média de dias de internação caiu de 12,4 antes da pandemia para 10,6 após 2023, e a probabilidade de óbito reduziu 23% no período pós-pandemia, comparado à fase pré-COVID.
Os mecanismos por trás desse declínio, segundo a análise, podem estar associados a mudanças nos protocolos hospitalares e maior agilidade nos diagnósticos após a crise sanitária, embora os autores alertem que o estudo é observacional e não permite estabelecer causalidade direta. No entanto, as evidências apontam que a reorganização dos serviços e a disseminação de boas práticas respiratórias podem ter gerado ganhos importantes para a população pediátrica.
Perfil das internações: quem são as crianças mais vulneráveis?
Entre os 17.677 atendimentos registrados, a maioria esmagadora (79%) ocorreu em crianças de 0 a 4 anos, sendo que os meninos lideram com 56,4% dos casos. “A imaturidade pulmonar, principalmente entre prematuros, torna os neonatos e lactentes particularmente suscetíveis ao barotrauma e à necessidade de ventilação mecânica, o que explica essa concentração etária”, explica a equipe no artigo. A região Sudeste concentrou 40,6% das internações, reflexo da maior oferta de leitos de UTI e de serviços de alta complexidade, mas o tempo médio de internação mais prolongado foi registrado no Nordeste (12,5 dias), o que sugere possíveis assimetrias no acesso a terapias intensivas.
Outro achado de destaque: 86% dos pacientes foram submetidos a procedimentos cirúrgicos (principalmente toracostomia com drenagem pleural fechada), enquanto apenas 12,8% receberam manejo clínico exclusivo. A cirurgia, embora necessária nos casos mais graves, associou-se a um risco de óbito 193% maior quando comparada ao tratamento clínico, dado que deve ser interpretado com cautela: pacientes mais críticos naturalmente evoluem para intervenções invasivas. “A realização de procedimentos cirúrgicos reflete a gravidade do quadro; o achado não indica que a cirurgia aumente o risco por si, mas sim que o pneumotórax complicado exige drenagem e isso se correlaciona com pior prognóstico”, contextualiza o estudo.
UTI e mortalidade: números que exigem atenção
Mais da metade (55,6%) dos internados precisaram de unidade de terapia intensiva, entre eles 45,9% em UTI neonatal. A internação em UTI elevou em 140% a chance de óbito, um reflexo da gravidade clínica desses pacientes, que frequentemente apresentam síndrome do desconforto respiratório ou necessidade de ventilação invasiva. Todavia, mesmo entre os críticos, a maioria evoluiu para alta hospitalar (86,3%), indicando que o manejo intensivo é eficaz quando oportuno.
Os autores ainda chamam a atenção para a redução consistente do tempo de internação conforme aumenta a idade: crianças de 10 a 14 anos ficaram em média 10,1 dias hospitalizadas, contra 12,4 dias entre os menores de 4 anos. “Esse gradiente etário reforça a necessidade de estratégias específicas para os extremos da infância, com vigilância redobrada na primeira infância”, afirmam os pesquisadores.
Surpresa epidemiológica: menos mortes durante e após a pandemia
Embora o SARS-CoV-2 tenha sido associado a raros casos de pneumotórax espontâneo, as internações pediátricas por essa condição diminuíram durante a pandemia, e o risco de óbito caiu 16% naquele período (RR=0,84) e 23% depois (RR=0,77). Os cientistas especulam que medidas não farmacológicas (distanciamento, uso de máscaras e higiene) reduziram infecções virais que poderiam desencadear pneumotórax secundário, além da reorganização das redes assistenciais que pode ter priorizado diagnósticos precoces.
Lições para o SUS
Os investigadores concluem que, embora o pneumotórax neonatal e pediátrico represente relevante causa de hospitalização, a maioria das crianças recebe alta hospitalar. A boa evolução está intimamente ligada ao reconhecimento precoce e à estruturação das unidades de terapia intensiva. A redução da mortalidade nos períodos mais recentes sugere que investimentos em capacitação e protocolos de atendimento podem salvar vidas. No entanto, as desigualdades regionais persistem: enquanto o Sul tem tempo médio de internação de 11,6 dias, o Nordeste chega a 12,5 dias, pequenas diferenças que, multiplicadas por milhares de casos representam maior custo humano e financeiro.
“Avanços na ventilação protetora e estratégias de manejo neonatal, junto com diretrizes de drenagem torácica, parecem ter impactado positivamente os desfechos. O reconhecimento precoce em pronto-socorro deve ser prioridade nos currículos de residência pediátrica”, reforça o time de autores.
Equipe de pesquisadores e instituições
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📄 ACESSO À OBRA ORIGINAL: DOI 10.61411/rsc2026128319 | Artigo completo: “Fatores associados à letalidade por pneumotórax na população pediátrica: análise multinível do SIH-DATASUS, 2008-2024”. Disponível no repositório da Revista Sociedade Científica.
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