Erro ao usar inaladores para asma: 40% das falhas notificadas à ANVISA são na administração


 

Erro ao usar inaladores para asma: 40% das falhas notificadas à ANVISA são na administração

Publicado em 20 de abril de 2026 às 19h44 (horário de Brasília)

Pesquisa analisou 347 notificações de eventos adversos no sistema VigiMed. Salbutamol é o medicamento mais envolvido e idosos são maioria entre os afetados. Dados apontam necessidade urgente de orientação farmacêutica para evitar hospitalizações e até óbitos.

Mais da metade das notificações de eventos adversos relacionados a dispositivos inalatórios para asma registradas na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) envolve mulheres, e idosos com mais de 65 anos representam o grupo etário mais afetado. Os dados são de um estudo epidemiológico publicado na Revista Sociedade Científica, que analisou 347 notificações espontâneas feitas entre janeiro de 2019 e março de 2025 no sistema VigiMed – plataforma oficial da ANVISA para monitoramento pós-comercialização de medicamentos.

Os pesquisadores Aline Spohr, Vanessa Adelina Casali Bandeira e Janaina Soder Fritzen identificaram nada menos que 875 eventos adversos associados ao uso de medicamentos inalatórios, com média de 2,52 ocorrências por paciente. Entre os principais achados, o salbutamol (broncodilatador de curta ação) aparece como o fármaco mais frequentemente suspeito, responsável por 59,94% das notificações, seguido por beclometasona (16,13%) e budesonida (7,49%).

Idosos e mulheres são os mais vulneráveis

Do total de pacientes com eventos adversos notificados, 52,74% são do sexo feminino. Os pesquisadores explicam que mulheres tendem a ter maior contato com serviços de saúde, maior consumo de medicamentos e, consequentemente, maior chance de notificação. Já os idosos com mais de 65 anos somaram 27,67% dos casos, a faixa etária mais prevalente. “Comorbidades como artrite nas mãos, deficiências visuais e cognitivas dificultam a técnica inalatória correta, comprometendo a adesão e a eficácia do tratamento”, destacam os autores no artigo.

📊 Números que chamam a atenção:
• 15,2% dos eventos adversos resultaram em hospitalização
• 9,94% representaram ameaça à vida
• 4,68% evoluíram para óbito
• 40,54% das notificações apontaram erro de administração do produto

Farmacêuticos lideram notificações e podem ser agentes de mudança

Um dado relevante do estudo é que os farmacêuticos foram os profissionais que mais notificaram eventos adversos, representando 58,50% do total. A maioria das entradas ocorreu por meio de serviços de saúde (60,52%), especialmente hospitais integrantes da Rede Sentinela da ANVISA. “O farmacêutico tem papel central na farmacovigilância, com capacitação técnica e acesso privilegiado para identificar e reportar reações adversas”, afirmam os autores.

Os pesquisadores ressaltam que a atuação clínica do farmacêutico pode reduzir significativamente os erros identificados, como técnica incorreta de inalação, superdosagem por uso excessivo e percepção equivocada de ineficácia do medicamento. Programas como o Farmácia Cuidar+, implementado no Rio Grande do Sul, são citados como exemplo bem-sucedido de acompanhamento farmacêutico que melhora a adesão e a segurança do paciente.

Principais eventos adversos: falta de ar, taquicardia e tosse

Entre os 875 eventos adversos mapeados, as manifestações mais comuns foram dispneia (falta de ar) em 5,6% das notificações, hipocalemia (baixa de potássio) em 4,8%, taquicardia (3,54%) e tosse (3,3%). A classificação predominante recaiu sobre “distúrbios respiratórios, torácicos e do mediastino” (53,02%) e “lesões, intoxicações e complicações relacionadas a procedimentos” (46,41%).

Os autores alertam que o salbutamol, embora amplamente utilizado no alívio de crises asmáticas, pode causar aumento significativo da frequência cardíaca (média de 23% mesmo em pacientes com doença cardiovascular pré-existente) e efeitos sobre o sistema nervoso central, como ansiedade, tremores e, em casos extremos, convulsões. “O monitoramento rigoroso é fundamental, especialmente em pacientes com comorbidades”, reforça a análise.

Falhas na administração e ineficácia percebida dominam problemas relatados

A análise detalhada dos problemas relacionados ao uso dos dispositivos mostrou que o erro de administração do produto foi a falha mais frequente (40,54%), seguida pela percepção de medicamento ineficaz (22,52%). Erros de prescrição (15,32%) e de dispensação (14,41%) também foram registrados. “Quando a técnica está incorreta, o princípio ativo não atinge adequadamente os pulmões, reduzindo a ação terapêutica e levando o paciente e o profissional a considerar o medicamento como ineficaz”, explicam os pesquisadores.

Entre os erros mais comuns no uso de inaladores estão: não realizar a exalação prévia, não manter a apneia após a inalação, posicionamento inadequado do dispositivo e falha ao realizar inspiração profunda com fluxo adequado. Esses equívocos comprometem a deposição pulmonar do fármaco e, consequentemente, o controle da asma.

Subnotificação e qualidade dos dados ainda são desafios

Os autores reconhecem limitações importantes do estudo, como a subnotificação de eventos adversos, problema recorrente em sistemas de farmacovigilância, e a presença de informações incompletas em muitas notificações. Cerca de 27,09% dos registros não informaram o estado de origem, e 37,37% das notificações não especificaram a gravidade do evento adverso. “Tais lacunas reforçam a necessidade de melhorias na qualidade do preenchimento das notificações e da capacitação contínua dos profissionais de saúde”, apontam os pesquisadores.

Educação em saúde e papel da farmacovigilância

O estudo conclui que a farmacovigilância é ferramenta essencial para identificar padrões de risco e falhas nos processos de prescrição, dispensação e administração de medicamentos inalatórios. A expressiva ocorrência de erros na técnica inalatória evidencia a necessidade de capacitação contínua de profissionais de saúde, especialmente para orientar populações vulneráveis como idosos e crianças.

“O fortalecimento das ações de farmacovigilância, aliado à educação permanente dos profissionais e à participação ativa dos usuários, é fundamental para a mitigação de riscos, melhoria da adesão terapêutica e promoção de um cuidado clínico mais seguro, eficaz e centrado no paciente”, destacam as autoras.

Pesquisas futuras devem investigar estratégias personalizadas, incluindo o uso de tecnologias digitais (aplicativos e vídeos instrutivos), para aperfeiçoar a técnica de administração e reduzir eventos adversos.

 

✍️ Autores do estudo e instituições:
Aline Spohr – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), Ijuí-RS, Brasil..
Vanessa Adelina Casali Bandeira – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), Ijuí-RS, Brasil..
Janaina Soder Fritzen – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), Ijuí-RS, Brasil.


📌 Sobre a publicação: O artigo Eventos adversos associados a dispositivos inalatórios para asma: análise das notificações no sistema da ANVISA foi publicado na Revista Sociedade Científica, volume 9, número 1, páginas 858-879, ano 2026. DOI: 10.61411/rsc2026132619. A obra está disponível na íntegra no site da revista.

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https://www.scientificsociety.net/2026/04/eventos-adversos-associados-a-dispositivos-inalatorios-para-asma-analise-das-notificacoes-no-sistema-da-anvisa/

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