Crianças de 0 a 4 anos têm até 60% mais risco de morte por Insuficiência Renal Aguda no SUS, aponta estudo nacional


Crianças de 0 a 4 anos têm até 60% mais risco de morte por Insuficiência Renal Aguda no SUS, aponta estudo nacional

Publicado em: 20 de abril de 2026, às 9h29

Pesquisa analisou 13,8 mil internações no SIH-DATASUS entre 2008 e 2024 e revela que necessidade de UTI aumenta em mais de 6 vezes o risco de óbito em pacientes pediátricos com lesão renal aguda.

Uma análise inédita de 13.887 internações pelo Sistema Único de Saúde (SUS) acaba de revelar um alerta preocupante para a saúde infantil no Brasil: crianças com idade entre 0 e 4 anos hospitalizadas por Insuficiência Renal Aguda (IRA) apresentam risco de morte até 60% maior do que aquelas nas faixas etárias de 5 a 14 anos. A conclusão é de um estudo epidemiológico publicado na Revista Sociedade Científica (Vol. 9, n. 1, 2026), que utilizou dados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH-DATASUS) de janeiro de 2008 a dezembro de 2024. A pesquisa, conduzida por uma equipe de pesquisadores liderada por Amanda Simon Puziski e colaboradores, identificou uma taxa de letalidade geral de 9,1% entre os pacientes de 0 a 14 anos. No entanto, o dado mais impactante é que a necessidade de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) eleva o risco de óbito em impressionantes 6,57 vezes (IC95% 5,74-7,51) quando comparado a crianças que não necessitaram de suporte intensivo.

Por que os mais novos são os mais vulneráveis?

O artigo, intitulado Fatores associados à letalidade por insuficiência renal aguda na população pediátrica: análise multinível do SIH-DATASUS, 2008-2024, explica que a maior vulnerabilidade dos lactentes e crianças na primeira infância está relacionada à imaturidade funcional dos rins. Nessa fase, a taxa de filtração glomerular é reduzida e a capacidade de autorregulação hemodinâmica é limitada, tornando o organismo mais suscetível a quadros de desidratação, infecções sistêmicas e efeitos de medicamentos nefrotóxicos. O estudo detalha que crianças de 5 a 9 anos apresentaram risco relativo (RR) de óbito de 0,40 (IC95% 0,34-0,49) e as de 10 a 14 anos, RR de 0,50 (IC95% 0,42-0,60), sempre tendo como referência o grupo de 0 a 4 anos. Isso significa que, na prática, a chance de morte por IRA é mais da metade nos grupos mais velhos em comparação aos bebês e crianças pequenas.

📊 Números da pesquisa:

  • Total de internações analisadas: 13.887
  • Letalidade geral: 9,1% (1.268 óbitos)
  • Maioria dos casos: crianças de 0 a 4 anos (52,8%)
  • Regiões com mais registros: Sudeste (35%) e Nordeste (24,9%)
  • Caráter da internação: 91,1% foram urgências

A UTI como fator crítico e a estabilidade da pandemia

De acordo com os autores, a associação fortíssima entre a necessidade de UTI e o óbito (RR=6,57) consolida a IRA como um marcador de gravidade extrema em ambiente hospitalar. A maioria das crianças que desenvolveram a complicação já estavam internadas por outras condições graves, como sepse, choque séptico ou no pós-operatório de cirurgias de grande porte, especialmente as cardíacas. Interessantemente, o estudo não encontrou diferença estatística significativa no tempo médio de internação entre os períodos pré-pandêmico (11,3 dias), pandêmico (11,1 dias) e pós-pandêmico (10,8 dias) de COVID-19 (p=0,40). Apesar da reorganização dos serviços de saúde durante a crise sanitária, a média de permanência hospitalar por IRA se manteve estável. Contudo, os pesquisadores notaram uma redução expressiva no número absoluto de internações por IRA nos anos de 2023 e 2024, o que pode refletir tanto mudanças nos padrões de busca por atendimento quanto uma subnotificação devido ao foco da rede assistencial na pandemia.

Desigualdades regionais e gargalos no diagnóstico

A análise regional mostrou que as regiões Sudeste e Nordeste concentram a maior parte das internações por IRA. Enquanto isso, o Centro-Oeste apresentou número significativamente inferior de registros. Os pesquisadores apontam que essa disparidade pode estar mais relacionada à capacidade de diagnóstico e à estrutura dos serviços de saúde do que propriamente a uma maior incidência da doença. Regiões com melhor infraestrutura hospitalar e sistemas de informação mais integrados tendem a captar e notificar mais casos. Outro ponto crítico levantado pelos autores é a predominância do diagnóstico inespecífico de IRA. Em 94,5% dos casos, foi utilizado o código CID-10 N17 (Insuficiência renal aguda não especificada). Isso revela uma fragilidade na caracterização etiológica da doença nos registros hospitalares, dificultando a diferenciação entre necrose tubular, cortical ou medular, o que compromete a estratificação de risco e o planejamento de terapias mais direcionadas.

Diagnóstico precoce salva vidas

Os pesquisadores concluem que a Insuficiência Renal Aguda na infância, especialmente nos primeiros quatro anos de vida, representa um importante marcador de gravidade clínica. A necessidade de suporte intensivo é o fator preditor mais forte de mortalidade, sinalizando a urgência de protocolos de manejo rápido e eficaz. “Os fatores mais associados à letalidade por insuficiência renal aguda em crianças foram a menor faixa etária e a necessidade de internação em UTI. A condição mostrou-se um importante marcador de gravidade, exigindo diagnóstico e manejo precoces para reduzir a mortalidade”, destacam os autores no artigo. O trabalho reforça que, embora a maioria dos pacientes receba alta (90,9%), o percentual de óbitos é expressivo e pode ser reduzido com vigilância ativa, monitoramento da função renal desde a admissão hospitalar e acompanhamento por nefrologia pediátrica.

Sobre os autores

Amanda Simon Puziski – Centro Universitário de Várzea Grande, Várzea Grande-MT, Brasil
Isadora Gonzaga Cesar – Centro Universitário de Várzea Grande, Várzea Grande-MT, Brasil
Manoela Garcia Borges – Centro Universitário de Várzea Grande, Várzea Grande-MT, Brasil
Maria Fernanda Andrade Paiva – Centro Universitário de Várzea Grande, Várzea Grande-MT, Brasil
Maria Luiza Ayres Nichele – Centro Universitário de Várzea Grande, Várzea Grande-MT, Brasil
Vivian Barcelos de Souza Dutra – Centro Universitário de Várzea Grande, Várzea Grande-MT, Brasil
Hugo Dias Hoffmann-Santos – Centro Universitário de Várzea Grande, Várzea Grande-MT, Brasil
Rosa Maria Elias – Centro Universitário de Várzea Grande, Várzea Grande-MT, Brasil
Silvania França da Silva – Centro Universitário de Várzea Grande, Várzea Grande-MT, Brasil

📄 Este estudo foi publicado na Revista Sociedade Científica — um periódico de acesso aberto dedicado às Ciências da Saúde e outras áreas do conhecimento.

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📖 Acesse a obra original: Clique aqui para ler o artigo completo na íntegra. DOI: 10.61411/rsc2026128419 | Mapeie o site da revista.

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