Cacau de Rondônia: Como a agricultura familiar mantém o estado entre os maiores produtores do Brasil mesmo com queda na produção


Cacau de Rondônia: Como a agricultura familiar mantém o estado entre os maiores produtores do Brasil mesmo com queda na produção

Publicado em: 10 de abril de 2026 às 16h30

Enquanto a produção de cacau em Rondônia caiu de 13.960 toneladas (2013) para uma média de 5 mil toneladas anuais, o estado mantém a quarta posição no ranking nacional e acaba de conquistar o selo de Indicação Geográfica (IG) Rondônia Cacau em Amêndoas. Uma pesquisa publicada na Revista Sociedade Científica (vol. 9, n. 1, 2026) revela os desafios e a força da agricultura familiar na produção de amêndoas de qualidade, destacando Ariquemes como o maior polo produtor do estado.

O estado de Rondônia consolidou, em 2023, um importante marco para a cacauicultura brasileira ao obter o registro de Indicação Geográfica (IG) para o cacau em amêndoas junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Contudo, por trás desse reconhecimento oficial da qualidade do produto, há uma realidade desafiadora: a produção estadual diminuiu drasticamente na última década. Um estudo aprofundado dos pesquisadores Mileni Cassimiro, Charles Carminati de Lima, Suzenir Aguiar da Silva e Nilza Duarte Aleixo de Oliveira, publicado na Revista Sociedade Científica, analisou os resultados econômicos da produção cacaueira entre 2013 e 2022 nos 52 municípios rondonienses, revelando um retrato preciso do setor.

O paradoxo da produção: qualidade reconhecida, mas volume em queda

A pesquisa, intitulada Indicação Geográfica Rondônia Cacau em Amêndoas: análise econômica da produção cacaueira em Rondônia, partiu de uma questão central: quais são os resultados econômicos da produção agrícola familiar nos municípios dentro do limite territorial da IG? A resposta, embora mostre resiliência, também acende um alerta. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) compilados pelo estudo indicam que a produção de cacau no estado atingiu seu pico em 2013, com 13.960 toneladas. A partir de 2014, houve uma queda abrupta, e o estado nunca mais ultrapassou a marca de 6 mil toneladas anuais, estabilizando-se em torno de 5 mil toneladas a partir de 2018.

Enquanto isso, a Região Norte e o Brasil como um todo apresentaram trajetória de crescimento. Em 2022, o Brasil produziu 273.873 toneladas, a Região Norte 151.811 toneladas, mas Rondônia contribuiu com apenas 5.017 toneladas. Apesar da redução, o estado se mantém como o quarto maior produtor nacional desde 2016, evidenciando que a crise de produtividade atinge mais de 70% dos municípios, mas a qualidade do grão, agora certificada pela IG, mantém o produto competitivo.

Êxodo rural e concorrência com soja e café: as causas da redução

Os autores identificaram dois fatores principais para a queda na produção. O primeiro é demográfico: a população rural de Rondônia encolheu significativamente. De acordo com o Censo Demográfico, o número de habitantes na zona rural caiu de 496.167 (2000) para 339.524 (2022), uma redução de mais de 156 mil pessoas. Essa diminuição da mão de obra disponível impacta diretamente a agricultura familiar, que responde por impressionantes 87,9% da produção de cacau no estado, conforme dados da Embrapa.

O segundo fator é a diversificação agrícola. O estudo aponta que o cacau vem sendo substituído parcialmente por culturas consideradas economicamente mais vantajosas, como o café e a soja. Enquanto a produção de cacau estagnou, a de café em grão disparou de 70.517 toneladas (2013) para 201.574 toneladas (2022). A soja, por sua vez, saltou de 574.900 para 1.750.249 toneladas no mesmo período, ocupando vastas áreas. “O estímulo econômico direcionado a atividades de monocultura, como a soja e o café, contribuiu para a redução do interesse de agricultores pelo cultivo do cacau”, destacam os pesquisadores nas considerações finais.

Ranking da produção: Ariquemes lidera e revela a força do interior

Um dos pontos altos da pesquisa é o mapeamento detalhado da produção por município. No acumulado de 2013 a 2022, Ariquemes consolidou-se como o maior produtor de cacau em amêndoas do estado, com 8.273 toneladas, seguido por Jaru (7.792 t) e Buritis (7.152 t). O estudo ressalta que Ariquemes detém o maior recorde de produção anual em toda a série histórica (1980-2022). A lista dos dez maiores inclui ainda Ouro Preto do Oeste, Urupá, Governador Jorge Teixeira, Theobroma, Cacaulândia, Porto Velho e Vale do Paraíso. Interessantemente, todos esses municípios estão localizados na porção norte do estado, formando um cinturão produtivo que merece atenção de políticas públicas.

Um dado curioso revelado pela análise de exportação (Comex Stat) é que o município de Guajará-Mirim lidera as exportações, com 2.964 toneladas embarcadas entre 2013 e 2022, mesmo não figurando entre os dez maiores produtores. O fenômeno se explica pela Lei nº 8.210/1991, que criou uma área de livre comércio no município, facilitando a exportação para países vizinhos. Isso demonstra que o potencial logístico pode ser tão importante quanto a produção local.

O futuro da cacaucultura em Rondônia: políticas públicas e valorização

Apesar dos desafios, o cenário não é desolador. Os pesquisadores destacam que, nos últimos anos, houve uma intensificação de políticas governamentais de incentivo. O programa Plante Mais, do Governo de Rondônia em parceria com a Emater, já distribuiu mais de dois milhões de mudas de cacau clonal para agricultores familiares. Além disso, a sanção da Lei Estadual nº 5.729/2024 institui a Política Estadual de Incentivo à Produção de Cacau de Qualidade, focando em assistência técnica, certificação de origem e cooperativismo.

A pesquisa conclui que a Indicação Geográfica Rondônia Cacau em Amêndoas é mais do que um selo: é uma estratégia de desenvolvimento regional. Para que a produção se recupere, os autores sugerem a ampliação de incentivos, a sucessão rural (atraindo jovens ao campo) e o investimento em agregação de valor, como a produção de chocolate artesanal no modelo “Bean to Bar” (do grão à barra), que pode aumentar a renda das famílias sem necessariamente aumentar a área plantada.

Destaques da pesquisa

  • Protagonismo familiar: 87,9% do cacau rondoniense é produzido pela agricultura familiar, gerando renda para mais de 10 mil famílias.
  • Concentração geográfica: Ariquemes, Jaru e Buritis respondem por uma parcela significativa da produção estadual.
  • Desafio estrutural: A redução da população rural (156 mil pessoas a menos entre 2000 e 2022) é uma ameaça real à manutenção da cultura.
  • Oportunidade: O selo de IG aliado a programas de incentivo pode reverter a queda e consolidar Rondônia como referência mundial em cacau especial.

A pesquisa está disponível na íntegra e serve como base para formuladores de políticas públicas, associações de produtores e investidores interessados no potencial agroindustrial da Amazônia Ocidental.

Sobre os autores

Mileni Cassimiro – Universidade Federal de Rondônia, Cacoal-RO, Brasil.

.Charles Carminati de Lima – Universidade Federal de Rondônia, Cacoal-RO, Brasil.

Suzenir Aguiar da Silva – Universidade Federal de Rondônia, Cacoal-RO, Brasil.

Nilza Duarte Aleixo de Oliveira – Universidade Federal de Rondônia, Cacoal-RO, Brasil.

Instituições envolvidas: Os autores basearam-se em dados do IBGE, Embrapa, SEAGRI e Comex Stat, sem vínculo institucional único declarado, representando um esforço colaborativo de pesquisa aplicada.

📄 Artigo publicado na: Revista Sociedade Científica – ISSN: 2595-8402

🔍 Edição Atual (2026): Volume 9, Número 1 | Mostra da Revista: Acesse aqui

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📖 Acesse a obra original:
CASSIMIRO, Mileni; DE LIMA, Charles Carminati; DA SILVA, Suzenir Aguiar; DE OLIVEIRA, Nilza Duarte Aleixo. Indicação Geográfica Rondônia Cacau em Amêndoas: análise econômica da produção cacaueira em Rondônia. Revista Sociedade Científica, vol. 9, n. 1, p. 668-718, 2026.
DOI: 10.61411/rsc2026126819 | Link direto: Clique aqui para ler o artigo completo

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