Raro caso de paralisia facial contralateral e tardia alerta cirurgiões após fratura na mandíbula


 

Raro caso de paralisia facial contralateral e tardia alerta cirurgiões após fratura na mandíbula

Publicado em: 08 de abril de 2026 às 05h45

Um jovem de 21 anos sofreu fratura no côndilo mandibular direito, mas desenvolveu, sete dias depois, uma paralisia completa do nervo facial do lado esquerdo, contralateral à fratura. O caso, publicado na Revista Sociedade Científica, mostra que fraturas temporais ocultas podem gerar hemiplegia facial tardia, algo raro na prática dos cirurgiões bucomaxilofaciais. O paciente se recuperou totalmente após quatro meses com tratamento conservador à base de corticoides.

Acidentes de trânsito são a principal causa de trauma facial em adultos, e as fraturas mandibulares estão entre as lesões mais frequentes. O que poucos imaginam é que um trauma na mandíbula pode, indiretamente, desencadear uma paralisia facial no lado oposto ao impacto, e com surgimento tardio. Esse foi o cenário atípico relatado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP – Araraquara), em um artigo científico que acende o alerta para complicações neurológicas muitas vezes subdiagnosticadas.

O caso que desafia o senso comum

O paciente, homem de 21 anos, deu entrada no serviço de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial da Faculdade de Odontologia da UNESP após um acidente automobilístico. Os exames clínicos e de imagem revelaram duas fraturas: uma no côndilo mandibular direito e outra na parassínfise esquerda. A conduta inicial foi cirúrgica, com redução aberta e fixação interna estável, realizada 48 horas após o trauma. No pós-operatório imediato, o paciente recebeu alta sem qualquer déficit motor facial, a mímica estava preservada e a oclusão reestabelecida.

Contudo, sete dias depois, o jovem retornou ao ambulatório com um quadro surpreendente: paralisia completa de todos os ramos do nervo facial do lado esquerdo, impossibilitando fechar o olho, movimentar a boca e expressar emoções naquele hemicorpo facial. A equipe, liderada pelos pesquisadores Miguel Pereira da Mata Santos, Beatriz D’Aquino Marinho, Valfrido Antônio Pereira Filho e Marcelo Silva Monnazzi, rapidamente investigou a causa. A otoscopia revelou hemotímpano à esquerda, e a tomografia computadorizada identificou uma fratura sem deslocamento no osso temporal direito — exatamente o lado oposto à fratura condilar tratada.

“A paralisia facial contralateral à fratura condilar é uma apresentação extremamente incomum”, destaca o estudo. Na literatura científica, a maioria das lesões do nervo facial associadas a fraturas mandibulares ocorre do mesmo lado da fratura e de forma imediata. Aqui, a neuropraxia (lesão compressiva com desmielinização, sem ruptura axonal) surgiu tardiamente, provavelmente devido à formação de hematoma ou edema no canal facial, decorrente da fratura do osso temporal contralateral.

Diagnóstico por imagem e eletromiografia: chave para o tratamento

O exame de eletromiografia deu suporte à hipótese: mostrou recrutamento reduzido e padrão de interferência diminuído nos músculos da mímica facial do lado esquerdo, enquanto o lado direito permanecia normal. Já a tomografia computadorizada multislice identificou uma fina linha de fratura na porção anterior do osso temporal esquerdo e na parede lateral do osso esfenoide, achados que inicialmente poderiam passar despercebidos.

Segundo os autores, “fraturas do osso temporal podem permanecer incertas mesmo após exame clínico e exames de imagem específicos”. De fato, um estudo de Exadaktylos et al. (2003) já demonstrava que mais de um terço das fraturas do osso temporal não são diagnosticadas apenas pela avaliação clínica. Por isso, o relato reforça a necessidade de investigação cuidadosa diante de sinais otológicos como otorragia ou hemotímpano.

Tratamento conservador e recuperação completa

O paciente foi tratado com corticoterapia por quatro semanas: dexametasona 8 mg associada à prednisona, com dose decrescente (80 mg na primeira semana, 60 mg na segunda, 40 mg na terceira e 20 mg na quarta). A conduta conservadora foi adotada por se tratar de provável neuropraxia, lesão com bom prognóstico de recuperação espontânea. Após quatro meses de acompanhamento, o jovem recuperou totalmente a função do nervo facial, sem necessidade de intervenção cirúrgica.

Estudos prévios indicam que lesões compressivas do nervo facial podem levar de semanas a meses para regeneração completa. A revisão sistemática de Arianpour et al. (2025) aponta períodos de até seis meses para o retorno total da função. O caso corrobora esse intervalo, demonstrando que a paciência e o manejo clínico adequado são suficientes na maioria das lesões fechadas.

🧠 Contexto relevante: A paralisia de Bell é a causa mais comum de paralisia facial, mas entre os traumas faciais, os acidentes de trânsito lideram as estatísticas. Quando há fratura do osso temporal, cerca de 27% dos pacientes desenvolvem paralisia imediata, porém os casos tardios são mais desafiadores, pois mimetizam outras neuropatias. Este relato é um dos poucos a documentar a paralisia facial contralateral a uma fratura condilar, ampliando o espectro de possibilidades diagnósticas.

Implicações para a prática clínica

Os autores destacam que a presença de hemotímpano ou otorragia após trauma facial, mesmo sem déficit neurológico inicial, deve levantar forte suspeita de fratura temporal oculta. “A investigação precoce de sintomas otológicos e o acompanhamento evolutivo podem favorecer o diagnóstico oportuno de lesões do nervo facial”, escrevem no artigo. Além disso, o caso mostra que a abordagem não cirúrgica bem-sucedida evita procedimentos desnecessários e reduz morbidade.

“O cirurgião bucomaxilofacial precisa estar atento à possibilidade de paralisia facial tardia e contralateral em pacientes com fraturas condilares”, reforça a equipe. O trabalho foi publicado na Revista Sociedade Científica, periódico multidisciplinar que tem se destacado por divulgar casos clínicos de alto valor educacional.

Destaques do estudo

  • Raridade do evento: Paralisia facial contralateral à fratura condilar é incomum e de instalação tardia, diferindo do padrão ipsilateral imediato.
  • Mecanismo fisiopatológico: Neuropraxia por compressão/isquemia secundária a hematoma ou edema pós-fratura temporal — sem perda axonal definitiva.
  • Importância do exame otoscópico: Hemotímpano é sinal de alerta para fratura de osso temporal, mesmo com tomografia inicial sem alterações evidentes.
  • Tratamento conservador eficaz: Corticoterapia por quatro semanas levou à recuperação total em quatro meses, sem sequelas.
  • Lição para o trauma facial: Monitorar neurologicamente pacientes pós-trauma, investigar sinais otológicos e considerar fraturas temporais não deslocadas.

👥 Sobre os autores e a pesquisa

Miguel Pereira da Mata Santos, Beatriz D’Aquino Marinho, Valfrido Antônio Pereira Filho e Marcelo Silva Monnazzi (UNESP – Araraquara), todos vinculados ao Departamento de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial da Faculdade de Odontologia, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). O estudo representa um esforço conjunto para documentar complicações neurológicas raras em traumatologia facial, fortalecendo o conhecimento baseado em evidências.

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Conteúdo desenvolvido com base no artigo original DOI:10.61411/rsc2026129319. As informações clínicas e científicas são fidedignas ao relato publicado. A Revista Sociedade Científica promove a ciência aberta e acessível.
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