Alerta na Bahia: um em cada três bebês nascidos em maternidade do interior tem sífilis congênita, aponta estudo


 

Alerta na Bahia: um em cada três bebês nascidos em maternidade do interior tem sífilis congênita, aponta estudo

Publicado em 8 de abril de 2026 às 6h00 (horário de Brasília)

Pesquisa realizada com 257 prontuários de uma maternidade em Feira de Santana (BA) revelou que 36,2% dos recém-nascidos foram diagnosticados com sífilis congênita, um índice alarmante que evidencia falhas graves no pré-natal e no registro clínico. Coordenado pelos pesquisadores Flavio Amorim Machado e equipe, o estudo publicado na Revista Sociedade Científica (2026) mostra que a ausência de tratamento adequado durante a gestação e a falta de informações sobre a conclusão do tratamento neonatal ocorreram em mais da metade dos casos, expondo uma crise silenciosa na saúde pública brasileira.

A sífilis congênita — infecção causada pela bactéria Treponema pallidum, transmitida da mãe para o bebê durante a gestação — voltou a ser uma ameaça reemergente no Brasil desde os anos 2000. Agora, dados inéditos de uma maternidade do interior da Bahia acendem o sinal de alerta: 93 casos positivos entre 257 recém-nascidos estudados, uma prevalência de 36,2%, muito acima da média nacional e de outras regiões. O estudo retrospectivo, descritivo e quantitativo, realizado na cidade de Feira de Santana, analisou todos os prontuários elegíveis de janeiro a dezembro de 2024, e seus resultados foram publicados na edição atual (2026) da Revista Sociedade Científica.

Perfil das mães e desigualdades estruturais

Os pesquisadores observaram que a sífilis congênita não atinge todas as gestantes de maneira igual. Mulheres com idade entre 30 e 40 anos apresentaram risco 2,43 vezes maior de transmitir a infecção ao bebê, com prevalência de 47,3% nessa faixa etária (p=0,023). Além disso, a cor da pele preta mostrou forte associação: recém-nascidos de mães autodeclaradas pretas tiveram risco 1,54 vez maior de sífilis congênita em comparação com os de mães pardas, com prevalência de 48,1% (p=0,003). Esse achado, segundo os autores, não se trata de fator biológico, mas sim de um marcador de vulnerabilidade social e racismo estrutural, já amplamente documentado na literatura brasileira.

🔍 Destaque da pesquisa: Em 55,6% dos prontuários, não havia registro se o tratamento do recém-nascido havia sido concluído. A ultrassonografia transfontanela (exame essencial para detectar neurossífilis) não foi registrada em 84% dos casos.

Falhas na triagem e tratamento: um sistema frágil

O estudo demonstrou que, quando ambos os testes, Teste Rápido (TR) e VDRL, foram reagentes na gestante, a prevalência de sífilis congênita no bebê atingiu 73,7% (RP=3,15; IC95%: 2,25-4,40; p<0,001). Este dado é chocante porque indica que, mesmo com diagnóstico da infecção materna, a transmissão vertical não foi interrompida. A ausência de informação sobre a realização da triagem apareceu em 8,8% dos prontuários e, nesses casos, a prevalência de SC foi de 56,2%, sugerindo que a falha no registro anda de mãos dadas com a falha na assistência.

Outro ponto crítico revelado pela pesquisa é a falta de monitoramento neonatal. Entre os 93 recém-nascidos diagnosticados com sífilis congênita, quatro evoluíram para neurossífilis (4,3%) e três foram a óbito (3,2%), mortes que os autores classificam como “totalmente evitáveis” se os protocolos do Ministério da Saúde fossem seguidos. O percentual de alta hospitalar foi de 84,4%, mas a ausência de registros sobre a conclusão do tratamento (55,6%) impede saber se esses bebês realmente receberam a terapia completa com penicilina.

Apgar saudável não significa ausência de infecção

Curiosamente, os pesquisadores identificaram que recém-nascidos com escores de Apgar 8 no primeiro minuto e 9 no quinto minuto, considerados bons indicadores de vitalidade, tiveram uma prevalência de sífilis congênita de 41,04% (RP=3,90; p=0,012). Esse achado, à primeira vista contraintuitivo, sugere que a sífilis congênita pode não se manifestar com sofrimento grave imediato ao nascimento, mascarando a infecção e atrasando intervenções. “A ausência de sinais clínicos graves não exclui a infecção”, alertam os autores, destacando a importância de testes laboratoriais em todos os recém-nascidos de mães não tratadas ou com tratamento inadequado.

Vulnerabilidades que se somam: comorbidades e parto induzido

O perfil clínico materno também contribuiu para o risco aumentado. Hipertensão arterial crônica (prevalência de SC de 51,4%; RP=1,61; p=0,02) e diabetes tipo 2 (61,5%; RP=1,92; p=0,02) foram comorbidades associadas à transmissão vertical. Já o trabalho de parto induzido sem sucesso apresentou 48,3% de SC entre os neonatos (RP=1,53; p<0,05), sugerindo que a infecção pode interferir na dinâmica placentária e na evolução do parto.

Os autores ressaltam que, apesar das limitações inerentes ao desenho retrospectivo (como dados faltantes em até 55,6% dos registros de tratamento), o estudo possui pontos fortes importantes: fornece evidência local de uma região frequentemente sub-representada nas pesquisas acadêmicas, o interior da Bahia, e analisa uma ampla gama de variáveis sociodemográficas, obstétricas e neonatais, oferecendo visão integrada da cadeia de transmissão.

O que muda com esses dados?

Para os autores, a mensagem é clara: a sífilis congênita persiste como problema grave de saúde pública porque falhas no pré-natal, no tratamento de parceiros e no registro clínico se retroalimentam. Eles recomendam testagem universal no primeiro trimestre, repetição no terceiro trimestre e no momento do parto, além de garantia de tratamento imediato da gestante e seus parceiros sexuais. Outra medida essencial é a melhoria da qualidade dos registros em prontuários, com checklists obrigatórios e auditorias periódicas.

“A eliminação da sífilis congênita como problema de saúde pública é uma meta factível, mas depende de compromisso político e institucional contínuo”, concluem os autores no artigo. A pesquisa serve como um termômetro preocupante para as políticas de saúde materno-infantil no Brasil, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde a prevalência histórica já oscila entre 20% e 40%.

👩‍⚕️ Sobre os autores e suas instituições

Flavio Amorim Machado (UNEX, Feira de Santana-BA, Brasil); Geruza Oliveira Santos (UNEX, Feira de Santana-BA, Brasil); Fabiola Oliveira Ataíde (UNEX, Feira de Santana-BA, Brasil); Marcia Regina Rocha Vieira (UNEX, Feira de Santana-BA, Brasil); Igor Santos Amaral (UNEX, Feira de Santana-BA, Brasil); Francisco Paulo Cerqueira Mota (UNEX, Feira de Santana-BA, Brasil); Rayane Kess Fagundes Silva (UNEX, Feira de Santana-BA, Brasil). O estudo foi conduzido com aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (Parecer nº 7.529082, 20 de janeiro de 2024).

📄 O artigo completo “Prevalência de sífilis congênita em recém nascidos de um hospital maternidade do interior da Bahia” foi publicado na Revista Sociedade Científica, volume 9, número 1, páginas 649-674, ano 2026. DOI: 10.61411/rsc2026119419.

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