A hepatozoonose canina, causada principalmente por Hepatozoon canis no Brasil, é uma doença transmitida pela ingestão do carrapato marrom (Rhipicephalus sanguineus) infectado. Conforme detalhado no artigo, seus sinais clínicos são inespecíficos e variam amplamente, desde infecções assintomáticas – que constituem um grande desafio diagnóstico – até quadros graves com febre, anemia, fraqueza muscular, perda de peso e, como observado no caso relatado, alterações neurológicas. A coinfecção com outros hemoparasitas, como a Ehrlichia canis (agente da erliquiose), é frequente e pode agravar o estado do animal, além de confundir o quadro clínico.

O caso em questão envolveu um cão sem raça definida (SRD), de aproximadamente 11 anos, atendido na clínica veterinária da UniEvangélica em Anápolis-GO. O animal apresentava histórico de alterações neurológicas meses antes e foi levado para uma consulta com o objetivo principal de realizar um tratamento periodontal. No exame físico, foi observada atrofia da musculatura facial e aumento reativo de um linfonodo. O hemograma de rotina solicitado antes do procedimento odontológico revelou achados cruciais: anemia macrocítica, trombocitopenia (baixa contagem de plaquetas) e aumento da proteína plasmática total. Essas alterações acenderam um alerta.

“Devido à ocorrência desses casos, a identificação da doença muitas vezes pode acontecer de forma acidental”, destacam as autoras no resumo do artigo. A suspeita levou à realização de um esfregaço sanguíneo, exame no qual foi possível visualizar ao microscópio a presença de gamontes de Hepatozoon canis no interior de leucócitos. Paralelamente, um teste rápido confirmou a positividade para Ehrlichia spp., configurando um cenário de coinfecção.

O tratamento instituído seguiu protocolos estabelecidos na literatura, como os descritos por Taylor et al. (2017), e incluiu a administração de dipropionato de imidocarb (Imizol®) associado à doxiciclina, além de suplementos vitamínicos para o suporte do animal. Contudo, um dos aspectos mais relevantes do relato é a evolução do caso: o tutor não conseguiu administrar a medicação oral de forma completa devido à dificuldade em medicar o cão, e não retornou para a segunda dose do Imizol. Apesar da intervenção terapêutica ter sido considerada inconclusiva, exames realizados meses depois não mostraram mais a presença de Hepatozoon canis no esfregaço sanguíneo, embora a erliquiose ainda se mantivesse positiva.

Esta evolução espontânea levanta questões interessantes discutidas no artigo. Embora o tratamento padrão seja recomendado, o caso sugere que, em algumas situações, o sistema imunológico do animal pode, a princípio, controlar a parasitemia por H. canis, especialmente se a carga inicial não for muito alta. No entanto, as autoras são categóricas em afirmar que isso não diminui a importância do diagnóstico e do tratamento adequado. “A hepatozoonose, apesar de subdiagnosticada em diversos casos, apresenta potencial para evoluir com sinais clínicos relevantes, principalmente quando associada a outras hemoparasitoses”, concluem nas considerações finais.

O estudo também faz um alerta epidemiológico. Embora a literatura aponte maior ocorrência em áreas rurais, o caso ocorreu em ambiente urbano, demonstrando que a presença do vetor e o contato com outros animais podem facilitar a transmissão mesmo em cidades. O controle rigoroso de carrapatos, portanto, é a principal medida preventiva.

Autoria e Instituição

O artigo é assinado por cinco pesquisadoras vinculadas à Universidade Evangélica de Goiás (UniEvangélica), em Anápolis:

  • Ana Clara Jacob Barros
  • Lara Aparecida Melo Rezende
  • Manielly Gonçalves Pimentel
  • Alana Gabriela Pereira Lopes
  • Natália Cristina de Souza

Sobre a Revista Sociedade Científica

Este importante relato de caso foi publicado na Revista Sociedade Científica, um periódico multidisciplinar comprometido com a divulgação de pesquisas originais e de qualidade. A revista está indexada e possui ISSN 2595-8402.

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