Conjuntivite como Sinal de Alerta: Olhos podem apontar para diagnóstico precoce de COVID-19
Publicado em: 12 de agosto de 2025
Um estudo publicado na Revista Sociedade Científica chama atenção para um aspecto frequentemente subestimado da pandemia de COVID-19: a superfície ocular e, em especial, a conjuntivite viral, que pode funcionar como pista diagnóstica precoce ou manifestação isolada da síndrome. À medida que sistemas de saúde e profissionais se adaptam à vigilância pós-pandêmica, a atenção renovada aos sintomas oftalmológicos torna-se uma peça relevante para detecção e proteção — tanto do paciente quanto do profissional de saúde.
Resumo do achado e contexto atual
A revisão apresentada pelos autores sintetiza literatura científica de 2019 a 2023 e seleciona 31 trabalhos que investigam a presença de manifestações oculares em pacientes com infecção por SARS-CoV-2. O texto conclui que, embora as manifestações respiratórias sejam predominantes, sinais como hiperemia conjuntival, sensação de corpo estranho, lacrimejamento e secreções podem preceder ou acompanhar sintomas respiratórios. Em alguns casos, a conjuntivite foi a única manifestação clínica relatada — algo que impõe aos serviços de saúde o dever de considerar o diagnóstico de COVID-19 em quadros oftalmológicos atípicos.
Por que isso importa para o público e para os profissionais?
O impacto público é duplo. Primeiro, do ponto de vista epidemiológico: reconhecer que olhos não são apenas alvos de desconforto, mas possíveis portas de entrada e rota de transmissão do vírus, reforça a necessidade de protocolos de proteção individual em consultórios e unidades de urgência. Segundo, do ponto de vista clínico: pacientes com conjuntivite viral isolada podem atrasar busca por teste e isolamento se a relação ocular–SARS-CoV-2 não estiver presente no raciocínio diagnóstico do clínico ou oftalmologista.
Metodologia condensada
Trata-se de revisão bibliográfica com buscas nas bases SciELO, LILACS e PubMed (2019–2023) usando descritores como “Infecções por Coronavírus”, “Pandemia”, “Oftalmologia” e “Conjuntivite” (inglês/português). A seleção criteriosa resultou em 31 estudos analisados criticamente — entre séries de casos, estudos transversais e revisões — que embasam a relação entre conjuntivite e infecção por SARS-CoV-2.
Mecanismos biológicos ressaltados
O trabalho destaca evidências sobre expressão do receptor ACE2 e da protease TMPRSS2 em células da superfície ocular — córnea, conjuntiva e estruturas anexas — como mecanismo que possibilita a entrada viral. Estudos citados apontam também para rotas de disseminação: inoculação direta por gotículas, migração via ducto nasolacrimal e possível disseminação hematogênica pela glândula lacrimal. Em alguns estudos, RNA viral foi detectado em amostras de secreção lacrimal, o que sustenta a hipótese de que lágrimas e secreções oculares podem conter material infeccioso.
Principais evidências clínicas
As pesquisas compiladas mostram variação na prevalência de sintomas oculares — de estudos que relatam índices baixos (menos de 1%) a relatos que encontram manifestações em cerca de 25–31% dos pacientes em determinados contextos. Sintomas mais frequentes: hiperemia conjuntival, prurido, lacrimejamento, olho seco, secreção e sensação de corpo estranho. Em alguns trabalhos, a conjuntivite foi identificada dias antes do aparecimento de febre ou sintomas respiratórios.
Implicações práticas e recomendações
Profissionais da saúde ocular devem usar EPI adequados (máscaras N95, óculos de proteção ou face shield, barreiras em lâmpadas de fenda) sempre que houver suspeita de virose respiratória associada a sinais oculares.
Em serviços de atenção primária e oftalmologia, incluir questionamento para sintomas sistemáticos respiratórios e considerar testagem para SARS-CoV-2 quando a conjuntivite for atípica ou ocorrer em contexto epidemiológico compatível.
Investir em estudos epidemiológicos adicionais para quantificar melhor risco de transmissão ocular e duração da positividade viral em secreções lacrimais.
Considerações finais (breves — destaques)
– A conjuntivite pode ser pista diagnóstica precoce da COVID-19.
– A presença de ACE2/TMPRSS2 na superfície ocular oferece base biológica plausível.
– É necessário reforçar o uso de EPI entre profissionais e incluir o sintoma ocular nos fluxos diagnósticos.
– Novos estudos epidemiológicos e laboratoriais são urgentes para esclarecer magnitude e implicações de saúde pública.
Autores e afiliações
Ana Helena Silva Cury Nassour — Universidade Nove de Julho, Bauru, SP, Brasil.
Alberto Cury Nassour — Universidade de São Paulo (USP), SP, Brasil.
Felipe Cintra Valentin — Universidade Nove de Julho, Bauru, SP, Brasil.
Observação: Incentivamos autores a submeter artigos e capítulos separadamente — a revista mantém fluxos editoriais distintos para artigos científicos revisados por pares e para capítulos/resumos com políticas e critérios próprios.
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