Invisibilidade do TDAH e da dislexia no Ensino Superior gera evasão e sofrimento psíquico, aponta estudo brasileiro
Publicado em 12 de maio de 2026 às 06:00 (Horário de Brasília)
Milhões de adultos brasileiros no Ensino Superior convivem diariamente com o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e a dislexia, mas a grande maioria nunca recebeu um diagnóstico formal. Sem adaptações pedagógicas e com o estigma social frequentemente reforçado dentro das universidades, esses estudantes enfrentam taxas elevadas de ansiedade, depressão e evasão acadêmica. É o que revela um artigo científico publicado na Revista Sociedade Científica, edição de 2026, assinado pelos pesquisadores Iraides Pereira de Sousa e Luan Santos Figueiredo, do Instituto de Ensino Superior do Sul do Maranhão – IESMA/Unisulma.
O estudo intitulado “A influência do TDAH e da dislexia na aprendizagem de adultos: desafios cognitivos e repercussões psicossociais no Ensino Superior” realizou uma revisão bibliográfica criteriosa na base SciELO e em periódicos nacionais. O resultado de 34 publicações analisadas é um retrato contundente: a universidade brasileira ainda não está preparada para acolher a diversidade cognitiva, e essa lacuna institucional transforma a trajetória acadêmica em uma fonte recorrente de frustração e adoecimento mental.
O que acontece no cérebro do adulto com TDAH e dislexia?
Diferentemente do que muitos imaginam, o TDAH não “desaparece” na vida adulta. De acordo com o referencial teórico do artigo, baseado nos trabalhos de Barkley (2020) e Whitbourne (2015), os sintomas motores de hiperatividade tendem a diminuir, mas a desatenção crônica se intensifica. No ambiente universitário, isso se traduz em dificuldades severas para gerenciar o tempo, planejar tarefas complexas e manter o foco em leituras longas. A procrastinação acadêmica de adiar entregas e estudos, não é falta de vontade, mas sim uma consequência neurobiológica direta do déficit nas funções executivas.
Já a dislexia, compromete o processamento fonológico da linguagem. O cérebro do estudante disléxico não automatiza a leitura: cada palavra exige um esforço consciente e exaustivo. Quando TDAH e dislexia ocorrem juntos, o que é frequente, o aluno precisa lidar simultaneamente com a lentidão da leitura e a perda do foco, o que gera fadiga cognitiva extrema. “O esforço é duplo: decodificar a escrita e manter a atenção no conteúdo”, destacam Sousa e Figueiredo.
Invisibilidade: o maior inimigo dentro da universidade
Um dos achados mais preocupantes da pesquisa é a chamada “invisibilidade institucional”. As universidades, de modo geral, não possuem protocolos para identificar alunos com TDAH ou dislexia. Muitos estudantes chegam ao Ensino Superior sem nunca terem recebido um diagnóstico formal, atribuindo suas dificuldades a características pessoais negativas. Isso gera um ciclo perigoso: baixo desempenho, frustração, autoestima reduzida, ansiedade e abandono do curso.
Os pesquisadores apontam que o sentimento de incompetência, alimentado pela comparação com colegas neurotípicos, transforma a universidade em um espaço de insucessos recorrentes. “O estudante acumula experiências de fracasso sem compreender sua origem biológica, desenvolvendo quadros secundários de ansiedade e depressão”, afirmam. Esse panorama ecoa internacionalmente: DuPaul et al. (2009) já haviam demonstrado que universitários com TDAH apresentam maior probabilidade de evasão.
Realidade regional: o caso do Maranhão e as desigualdades estruturais
A pesquisa trouxe um recorte regional importante. Ao analisar dados de Rodrigues et al. (2025), os autores mostram que em municípios de médio porte do Maranhão houve quedas acentuadas no desempenho escolar em Língua Portuguesa e Matemática após a pandemia de covid-19. Esse dado é alarmante porque muitos ingressantes chegam à universidade com lacunas de aprendizado ainda mais profundas. Quando somadas a um TDAH ou dislexia sem apoio, as chances de permanência acadêmica se tornam mínimas sem intervenções psicopedagógicas urgentes.
Além disso, Rebelo (2024) evidencia a precariedade de infraestrutura tecnológica nas instituições públicas brasileiras, especialmente no que diz respeito ao acesso a tecnologias assistivas. Softwares de conversão de texto em voz, aplicativos de organização visual e gravadores de aula ainda são privilégios de poucos. A pandemia escancarou essa desigualdade, e seus efeitos ainda reverberam nas salas de aula.
Estratégias que funcionam: personalização e flexibilização
Nem tudo são obstáculos. O artigo também destaca caminhos promissores para a inclusão. Capelli et al. (2020) e outros autores reforçam que o uso de recursos multimodais, como mapas mentais, vídeos explicativos, áudio-livros acadêmicos, associado à flexibilização dos processos avaliativos (tempo adicional para provas, formatos orais de apresentação) permite que os estudantes com TDAH ou dislexia demonstrem seu real potencial intelectual.
Os pesquisadores ressaltam, contudo, que essas adaptações só serão efetivas se as universidades reconhecerem a neurodiversidade como parte constitutiva do corpo discente. “Não se trata de oferecer ‘benefícios’, mas de remover barreiras artificiais que impedem a participação plena”, escrevem Sousa e Figueiredo. A integração entre Psicologia e Pedagogia no Ensino Superior é apresentada como condição necessária para a construção de um ambiente verdadeiramente inclusivo.
Reconhecer é um ato de responsabilidade social
Os autores concluem que o TDAH e a dislexia não se restringem à infância, eles persistem na vida adulta e impõem desafios concretos como organização, cumprimento de prazos, fluência de leitura e atenção sustentada. O principal obstáculo, porém, não são os transtornos em si, mas a invisibilidade que as instituições de ensino impõem a eles. “Sem diagnóstico adequado, acolhimento institucional e adaptações pedagógicas, o estudante tende a interpretar suas dificuldades como falhas pessoais”, alertam.
O estudo defende que reconhecer a persistência do TDAH e da dislexia na maturidade não é apenas uma questão acadêmica, mas uma responsabilidade social. Para pesquisas futuras, os autores sugerem a ampliação da revisão considerando textos em línguas estrangeiras, a fim de comparar políticas internacionais de inclusão com a realidade brasileira.
📌 Sobre os autores:
Iraides Pereira de Sousa — Instituto de Ensino Superior do Sul do Maranhão – IESMA/Unisulma, Imperatriz, Brasil.
Luan Santos Figueiredo — Instituto de Ensino Superior do Sul do Maranhão – IESMA/Unisulma, Imperatriz, Brasil.
O artigo completo foi publicado na Revista Sociedade Científica, periódico multidisciplinar que se destaca pela divulgação de pesquisas originais nas áreas de Ciências Humanas, Saúde, Educação e Tecnologia. A obra está disponível no volume 9, número 1, ano 2026, com DOI: 10.61411/rsc2026135019.
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