Hematoma na medula espinhal engana médicos e simula tumor por 10 anos
Um homem de 63 anos, sem histórico de problemas urinários, chegou ao pronto-socorro com retenção aguda de urina e dor lombar súbita. Os exames apontavam um tumor sólido comprimindo a medula torácica. Mas o desfecho, comprovado por 10 anos de acompanhamento ininterrupto, derrubou a hipótese inicial: tratava-se de uma hemorragia subaracnóidea medular (HSAE) que desapareceu espontaneamente, sem necessidade de cirurgia. O caso acaba de ser publicado na Revista Sociedade Científica (vol. 9, n. 1, 2026) e serve como alerta fundamental para neurocirurgiões e urologistas.
O paciente, cuja identidade foi preservada, deu entrada na emergência com incapacidade súbita de urinar, perdas urinárias por transbordamento e ausência total da sensação de bexiga cheia. Em poucas horas, evoluiu com rigidez de nuca e sinais de irritação meníngea, mas sem fraqueza nos membros. A tomografia de crânio não mostrou alterações. Foi a punção lombar que deu a primeira pista crucial: o líquido cefalorraquidiano saiu uniformemente sanguinolento em todos os frascos, evidência clássica de sangramento no espaço subaracnóideo.
O grande dilema surgiu com a ressonância magnética (RM) da coluna torácica. As imagens revelaram uma lesão oval intradural-extramedular em T11-T12, medindo cerca de 1,2 cm, com realce homogêneo após contraste e compressão da medula. O aspecto radiológico era idêntico ao de um meningioma ou neurofibroma, tumores sólidos que exigem, na maioria das vezes, exérese cirúrgica. “A massa oval, bem delimitada e com realce homogêneo é o padrão típico de neoplasia”, explicam os autores Maysa Cunha Nogueira Bastos, Tiago Menezes Brasil e Wesley Queiroz Muniz.
O “tumor fantasma” que engana até especialistas
Contradizendo a imagem, o início agudo dos sintomas (dor lombar e retenção em horas) e o líquor hemorrágico apontavam para uma etiologia vascular. A equipe optou por conduta conservadora: dexametasona (corticoide) e cateterismo vesical intermitente, mantendo rigorosa vigilância clínica e radiológica. O paciente recuperou a micção fisiológica após cinco meses. A RM de controle, realizada aos seis meses, mostrou a resolução completa da lesão — a compressão medular desapareceu, e a medula retornou à posição normal. O fenômeno é conhecido na literatura como “vanishing tumor” (tumor fantasma), caracterizado pelo desaparecimento espontâneo de uma lesão expansiva intradural, geralmente de origem hemorrágica ou inflamatória.
“A diferenciação precoce entre tumor sólido e hematoma subaracnóideo é crucial. Enquanto neoplasias exigem ressecção cirúrgica, eventos vasculares podem ter resolução favorável com manejo conservador”, destacam os autores no artigo. O caso é ainda mais relevante porque o paciente foi acompanhado por uma década inteira, sem qualquer recidiva ou novo déficit neurológico.
Por que a retenção urinária aguda é um alerta neurológico
A retenção urinária aguda (RUA) é uma emergência urológica comum, mas sua origem neurogênica é frequentemente subdiagnosticada. A bexiga depende da integridade dos nervos hipogástricos (T11-L2, sistema simpático) e pélvicos (S2-S4, parassimpático). A compressão medular ao nível de T11-T12 interrompeu essa via, causando bexiga arreflexa com transbordamento. Por isso, os autores reforçam: todo paciente com retenção urinária aguda sem causa obstrutiva evidente deve ser investigado com exame neurológico detalhado e, se necessário, RM de neuroeixo.
Tratamento conservador: uma decisão alinhada ao paciente
A literatura ainda não tem consenso absoluto, mas a maioria dos especialistas indica cirurgia de emergência apenas quando há déficits neurológicos progressivos (como paralisia súbita ou perda do controle esfincteriano irreversível). Em casos leves a moderados, como o relatado, o tratamento conservador com corticoesteroides e vigilância estreita é seguro e evita laminectomias desnecessárias. O corticosteroide atua inibindo a cascata neuroinflamatória local e reduzindo o edema da medula.
“Essa dissociação clínico-radiológica (imagem de tumor, mas início agudo) e o LCR hemorrágico foram fundamentais para sustentar a hipótese de hematoma. A corticoterapia e a observação evitaram uma cirurgia de grande porte”, escrevem os autores. Após 10 anos de seguimento, não houve qualquer intercorrência, validando a conduta conservadora.
Imagem do sangue na RM: evolução temporal que engana
Uma das razões que levam ao erro diagnóstico é a evolução temporal do sinal do sangue na ressonância. Na fase hiperaguda (<24h), o hematoma pode ser hipossinal em T1; na fase subaguda (3–7 dias), a meta-hemoglobina intracelular confere hipersinal em T1 e hipossinal em T2 — padrão que mimetiza tumores sólidos realçados. O caso relatado foi interpretado inicialmente como neoplasia justamente por esse fenômeno. “A RM de controle aos seis meses, com desaparecimento total da lesão, confirmou retrospectivamente o diagnóstico de hemorragia subaracnóidea”, esclarecem os pesquisadores.
👩⚕️ Autores e instituições
- Maysa Cunha Nogueira Bastos — Universidade do Estado do Pará, Santarém, Brasil.
- Tiago Menezes Brasil — Universidade do Estado do Pará, Santarém, Brasil.
- Wesley Queiroz Muniz — Universidade do Estado do Pará, Santarém, Brasil.
🔗 Acesso à obra original: https://www.scientificsociety.net/2026/05/retencao-urinaria-aguda-neurogenica-e-hemorragia-subaracnoidea-medular-um-desafio-diagnostico-relato-de-caso-com-10-anos-de-seguimento/
A pesquisa foi publicada na Revista Sociedade Científica, periódico multidisciplinar com foco em ciências da saúde, biológicas, agrárias, exatas e da Terra, engenharias, sociais aplicadas e humanas. O artigo completo pertence à Edição Atual (2026). Convidamos você a conhecer a Mostra da Revista e também as edições recentes: Edição 2025 e Edição 2024. Para buscar artigos por área ou palavra-chave, utilize a ferramenta Pesquisar na Revista.
✔️ Considerações finais em destaque
- Hematomas espinhais espontâneos podem simular tumores intradurais (“armadilha diagnóstica”).
- RUA neurogênica como manifestação isolada exige investigação neurológica ampla.
- Integração entre início súbito, LCR hemorrágico, estabilidade clínica e RM seriada evita cirurgias desnecessárias.
- Conduta conservadora com corticoterapia + vigilância mostrou-se segura e eficaz, validada por 10 anos de seguimento.
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