Mais de 39 mil medicamentos vencidos são recolhidos por universitários em ação que une Farmácia, Engenharia Ambiental e extensão crítica
Em meio à crescente preocupação mundial com contaminantes emergentes – entre eles fármacos encontrados em rios, aquíferos e até na água que chega às torneiras – um grupo de docentes e monitores da UFF decidiu ir além da sala de aula. A proposta foi simples e ambiciosa ao mesmo tempo: ensinar toxicologia ambiental por meio de uma experiência de mobilização social. Os resultados surpreenderam os próprios organizadores e acendem um sinal verde para políticas de educação ambiental no ensino superior brasileiro.
Liderada pelos(as) pesquisadores(as) Beatriz Katielen Pinto Guimaraes Mendonça, Leandro Vargas Barreto de Carvalho, Monique Araújo de Brito, Letícia Figueira de Castro e Paula da Silva Kujbida, a intervenção envolveu 70 estudantes matriculados nas disciplinas de Toxicologia Geral (Farmácia) e Toxicologia Ambiental (Engenharia de Recursos Hídricos e do Meio Ambiente). Entre os respondentes do questionário de avaliação (23 alunos, taxa de 32,9%), 95,7% aderiram à gincana de coleta de medicamentos vencidos ou em desuso, percorrendo bairros, dialogando com familiares e vizinhos sobre os riscos do descarte inadequado e recolhendo caixas de remédios esquecidos em gavetas.
Medicamentos parados em casa: um problema de saúde pública e ambiental
No Brasil, estima-se que mais da metade das famílias possui ao menos um medicamento vencido em casa. O hábito de armazenar sobras de tratamento ou comprar por conta própria gera estoques domiciliares, que muitas vezes acabam no lixo comum (aterro sanitário) ou no esgoto. “Fármacos como anti-inflamatórios, antibióticos e hormônios têm sido detectados em corpos d’água, afetando a vida aquática e podendo levar à resistência antimicrobiana”, alertam os autores na introdução do artigo. A pesquisa da UFF mostrou que antes da atividade apenas 34,8% dos alunos conheciam pontos de descarte adequado; após a intervenção, 65,2% afirmaram ter divulgado essas informações. Ou seja, a lacuna de conhecimento foi reduzida pela prática extensionista.
Um dos dados mais impressionantes veio da inspeção dos medicamentos arrecadados: foram encontradas cartelas com prazo de validade expirado desde 2010. Isso revela armazenamento prolongado, possíveis falhas na adesão ao tratamento e compra excessiva. “A manutenção de estoques domiciliares está relacionada à falta de orientação adequada”, destacam os autores, ecoando a literatura científica.
A estratégia que engajou futuros farmacêuticos e engenheiros
A metodologia foi estruturada em três pilares: (1) aula expositiva dialogada, com dados recentes sobre detecção de fármacos em água para consumo humano; (2) gincana de mobilização social durante três semanas, onde cada equipe coletou o máximo de medicamentos vencidos, com premiação sustentável feita a partir de bulas e caixas de remédios; (3) atividade prática em sala, com criação de cartazes sobre classes de contaminantes emergentes e apresentação para a turma. O resultado não foi apenas aprendizagem: a turma de Farmácia (diurno) recolheu 17.903 unidades, o noturno 11.033, e a Engenharia Ambiental (diurno) 7.583 unidades, totalizando 39.115 comprimidos/cápsulas retirados do ambiente doméstico e encaminhados para logística reversa oficial do Estado do Rio de Janeiro.
Quando perguntados sobre o que mais gostaram, as falas dos alunos giraram em torno de aprendizado/conscientização (21,7%) e coleta/ação prática (21,7%). Um dos relatos qualitativos mencionou: “Pude conversar com meus vizinhos sobre o perigo de jogar remédios no lixo; trouxeram caixas antigas que estavam guardadas há anos”. A análise de conteúdo mostrou que 47,8% dos participantes apontaram mudança de percepção principalmente sobre a importância do descarte correto de medicamentos.
Curricularização da extensão: mais que exigência legal, ferramenta de transformação
Desde a Resolução CNE/CES nº 7/2018, as universidades brasileiras são instadas a incorporar a extensão nos currículos. Mas, na prática, ainda há desafios. Este estudo demonstra como uma disciplina tradicional de toxicologia pode tornar-se um laboratório vivo de responsabilidade socioambiental. Os pesquisadores concluem que “intervenções educativas associadas à extensão universitária são estratégias eficazes para a educação ambiental crítica no ensino superior”. Os resultados também indicam potencial multiplicador: 91,3% dos alunos afirmaram ter intenção de repassar as informações aprendidas, um efeito cascata que amplifica o alcance da ação para além dos muros da UFF.
Entre as dificuldades relatadas, 39,1% não encontraram obstáculos, enquanto alguns citaram tempo insuficiente e logística para mobilização. Nas sugestões, os próprios alunos pediram ampliação do período de arrecadação e maior divulgação prévia. Os organizadores já planejam futuras edições com prazo estendido e parcerias com farmácias comunitárias.
O que fica de lição?
A pesquisa conclui que atividades de extensão com viés educativo, combinadas à gamificação (gincana), são capazes de promover engajamento real e mudanças de comportamento. “A expressiva quantidade de medicamentos arrecadados evidencia o alcance da proposta junto à comunidade e reforça seu potencial como estratégia de intervenção educativa com impacto social”, escrevem os autores. E mais: a iniciativa está alinhada à Política Nacional de Assistência Farmacêutica e ao Decreto nº 10.388/2020, que institui a logística reversa de medicamentos domiciliares. Para os futuros farmacêuticos, fica a lição de que a orientação sobre descarte faz parte da assistência; para os engenheiros ambientais, a educação ambiental é ferramenta central de gestão de recursos hídricos.
🔬 Sobre os autores e instituição
Beatriz Katielen Pinto Guimaraes Mendonça; Leandro Vargas Barreto de Carvalho; Monique Araújo de Brito; Letícia Figueira de Castro; Paula da Silva Kujbida – todos vinculados à Faculdade de Farmácia, Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói-RJ, Brasil. A pesquisa reflete o trabalho coletivo de docentes, monitoria e discentes comprometidos com a extensão crítica.
A obra foi publicada na Revista Sociedade Científica (ISSN 2595-8402). A edição atual (volume 9, número 1, ano 2026) está disponível no link da Edição Atual (2026). Conheça também a Mostra da Revista e explore conteúdos recentes: Edição 2025 | Edição 2024. Para localizar artigos por área ou palavra-chave, utilize a ferramenta Pesquisar na Revista.
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Referência completa da obra noticiada:
MENDONÇA, Beatriz Katielen Pinto Guimaraes et al. Avaliação de atividade de ensino com viés extensionista no ensino superior: percepções de universitários sobre participação em proposta educativa envolvendo medicamentos como contaminantes emergentes e descarte adequado. Revista Sociedade Científica, vol. 9, n. 1, p. 1052-1070, 2026. https://doi.org/10.61411/rsc2026133319
