Design System acessível abre caminho para inclusão digital de pessoas com baixa visão no Brasil, mostra estudo
Publicado em
Menos de 3% dos sites brasileiros são totalmente acessíveis, apesar de mais de 6,5 milhões de pessoas viverem com baixa visão no país. Para reverter esse cenário, pesquisadoras da área de Ciência da Computação desenvolveram um Design System acessível e um protótipo de alta fidelidade, uma solução prática que transforma diretrizes internacionais em componentes digitais reutilizáveis. O trabalho, publicado na Revista Sociedade Científica (vol. 9, n. 1, 2026), combina experiência do usuário (UX) com as diretrizes WCAG e pode servir como referência para portais públicos, educacionais e privados que buscam maior inclusão digital.
Barreiras invisíveis: contraste e navegação ainda excluem milhões
O processo de transformação digital ampliou o acesso a serviços, conteúdos e transações online, mas expandiu também as desigualdades para quem enxerga parcialmente. A baixa visão, diferente da cegueira total, preserva um resíduo visual funcional, porém muito sensível às condições de apresentação da informação. Contraste inadequado, fonte pequena, ausência de rótulos, indicadores de foco invisíveis e menus instáveis transformam tarefas simples (como preencher um formulário ou ler uma notícia) em experiências frustrantes e, muitas vezes, impossíveis. Para as autoras Ana Beatriz Marques Moreira e Tayse Virgulino Ribeiro, o problema não está apenas no descumprimento de normas técnicas. “A conformidade com as diretrizes de acessibilidade é necessária, mas nem sempre suficiente para assegurar eficiência e satisfação em contexto real de uso”, anotam no artigo. A solução, segundo a pesquisa, exige ir além da lista de verificação: é preciso personalização visual, previsibilidade de navegação e uma arquitetura de interface que mantenha a coerência mesmo quando o usuário amplia a tela em 200% ou ativa o modo de alto contraste.O que é um Design System acessível e por que ele funciona
Diferentemente de correções isoladas (aplicadas tardiamente no desenvolvimento), um Design System acessível incorpora requisitos de inclusão diretamente nos componentes-base da interface: botões, campos de formulário, menus, cores, tipografia e estados de interação. A pesquisa detalha a criação de tokens de design (valores primitivos de cor, espaçamento e tipografia) que garantem contraste mínimo de 18,1:1 para textos principais, bem acima do nível AAA exigido pelas diretrizes WCAG 2.1. A paleta cromática também adota o princípio de redundância: nenhuma informação é transmitida exclusivamente por cor, sendo sempre acompanhada por texto ou ícone. Outro destaque técnico é o menu lateral persistente. Após uma avaliação heurística comparativa (que testou menus superior fixo, lateral e hambúrguer), o modelo lateral foi o que apresentou melhor desempenho para pessoas com baixa visão: oferece previsibilidade espacial, suporte robusto à navegação por teclado e não se oculta, reduzindo a carga cognitiva. A pesquisa também exige um skip link (primeiro elemento focável) que permite pular diretamente ao conteúdo principal, e uma barra de acessibilidade com controles de aumento de fonte (até 200%), alto contraste e espaçamento ampliado, recursos que, historicamente, são tratados como opcionais, mas que o estudo consagra como “requisito funcional”.Brasil tem desafio estrutural: só 2,9% dos sites estão aprovados
O artigo ancora sua relevância em dados concretos. Em 2024, levantamento da BigDataCorp em parceria com o Movimento Web para Todos revelou que apenas 2,9% dos sites brasileiros foram aprovados em todos os testes de acessibilidade aplicados. Esse número evidencia a persistência de barreiras, mesmo depois de anos de vigência da Lei Brasileira de Inclusão (13.146/2015) e de recomendações internacionais. A escassez de soluções sistematizadas e reutilizáveis é apontada no estudo como uma das razões para a lentidão do avanço: faltam artefatos prontos (guias de estilo, bibliotecas de componentes, fluxogramas de tarefa) que possam ser adotados diretamente por equipes de design e desenvolvimento. Para preencher essa lacuna, as pesquisadoras utilizaram o Design Science Research (DSR), uma metodologia que combina diagnóstico, avaliação comparativa e construção de artefato. O resultado foi um protótipo navegável de alta fidelidade desenvolvido no Figma, simulando um portal informacional genérico com páginas de conteúdo, busca, formulários e painel de acessibilidade. Três fluxos críticos foram modelados: localizar informação por busca, preencher formulário com validação em linha e ajustar preferências visuais. Em todos eles, a comunicação de estado dinâmica foi garantida por atributos WAI-ARIA (regiõesaria-live), permitindo que tecnologias assistivas anunciem resultados de busca e mensagens de erro sem sobrecarregar o usuário.
O que os resultados mostram e o que falta fazer
O artefato foi avaliado por meio de um Checklist de Conformidade Heurística com 110 itens, distribuídos em seis categorias: contraste/legibilidade, tamanho/espaçamento, navegação/interação, feedback/estado, consistência/padrões e flexibilidade/personalização. O índice global de conformidade alcançou 94,5%, com destaque para navegação (97%) e consistência (98%). O menor índice (90% em flexibilidade) não decorreu de ausência de recursos, mas da limitação do ambiente de prototipação (que não permite demonstrar persistência real de preferências entre sessões sem implementação em código). Ainda assim, as autoras consideram o resultado robusto o suficiente para afirmar que a articulação entre Design System e protótipo de alta fidelidade “fortalece a consistência da interface, reduz barreiras de uso e oferece um artefato prático para apoiar equipes de design e desenvolvimento”. Como próximos passos, o estudo recomenda a implementação do sistema em código (HTML/CSS/JavaScript), a realização de testes de usabilidade com usuários reais com baixa visão e a ampliação da biblioteca de componentes para incluir tabelas e gráficos acessíveis. Também sugere investigar a integração com tecnologias assistivas baseadas em inteligência artificial.Por que essa pesquisa importa agora
O trabalho dialoga diretamente com três Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU: ODS 4 (educação de qualidade), ODS 9 (indústria, inovação e infraestrutura) e ODS 10 (redução das desigualdades). Em um contexto onde serviços públicos, escolares e bancários migram rapidamente para o digital, deixar de incluir mais de 6,5 milhões de brasileiros com baixa visão não é apenas uma falha técnica, é uma violação do direito de acesso à informação. O Design System apresentado na Revista Sociedade Científica mostra que é possível projetar com inclusão desde a primeira linha de código, sem transformar a acessibilidade em uma etapa de correção tardia e cara.👩💻 Sobre as autoras
Ana Beatriz Marques Moreira e Tayse Virgulino Ribeiro são pesquisadoras vinculadas a Universidade Estadual do Tocantins, Palmas, Brasil
📄 Publicação científica O artigo “Design System acessível como estratégia de inclusão digital: uma abordagem baseada em UX para usuários com baixa visão” foi publicado na Revista Sociedade Científica, periódico multidisciplinar com foco em ciências naturais, computação, engenharias, humanidades e da saúde entre outras.
🔗 Acesse a edição atual (2026) — Volume 9, Número 1 📚 Edições recentes: 2025 | 2024 🔍 Pesquisar na Revista (atalho para busca de artigos por título, autor ou palavra-chave).
📌 Como acessar o estudo original
DOI: 10.61411/rsc2026134419 Link direto: www.scientificsociety.net/2026/04/design-system-acessivel-para-baixa-visao Mapa do site: https://www.scientificsociety.net/ — acesse notícias, edições e submissões.
✍️ Convite para pesquisadores A Revista Sociedade Científica recebe artigos originais em diversas áreas (Ciências da Computação, Saúde, Educação, Engenharias e mais). Áreas de publicação podem ser conferidas nas seções das edições: 2024 | 2025 | 2026. ✅ Tutorial de 4 passos para submissão: clique aqui ✅ Vantagens de publicar na Revista: indexação, visibilidade e revisão qualificada.
📖 Nova seção: Capítulos de Livros e Resumos Científicos
Pesquisadores que já possuem artigos científicos publicados e desejam expandir sua produção podem publicar capítulos de livros científicos e resumos expandidos em fluxo editorial próprio. A iniciativa fortalece a carreira acadêmica e amplia o impacto do conhecimento. ➡️ Acesse: Seção de Livros Científicos ➡️ Notícia oficial: Publicação de Livros Científicos – nova seção ➡️ Vantagens: Capítulos de Livros Científicos: impulsionando a carreira e o conhecimento.
