Desnutrição e atraso cognitivo: estudo revela realidade preocupante em crianças do Baixo Tocantins


Desnutrição e atraso cognitivo: estudo revela realidade preocupante em crianças do Baixo Tocantins

Publicado em: 29 de abril de 2026 – 5h30

 

Em um alerta para as políticas públicas de saúde e educação, um estudo conduzido no coração da Amazônia paraense evidencia uma relação direta e preocupante: crianças que vivem em comunidades rurais com desnutrição leve a moderada apresentam desempenho cognitivo significativamente inferior quando comparadas a seus pares em áreas urbanas. A pesquisa, publicada na Revista Sociedade Científica, avaliou 60 crianças de 3 a 6 anos na região do Baixo Tocantins, no Pará, e concluiu que a má nutrição não afeta apenas o corpo, mas compromete de forma duradoura a memória, a atenção e a capacidade de aprendizado.

O trabalho dos pesquisadores Endrio Benedito Ribeiro Tavares e Francielle Bonet Ferraz analisou três realidades distintas: uma escola pública rural, uma escola pública urbana e uma escola particular urbana. Os resultados são claros: enquanto as crianças da zona rural apresentaram IMC médio entre 13,8 e 14,4 (classificado como desnutrição leve a moderada) e pontuação entre 8 e 16 no teste cognitivo adaptado (MEEM – Mini Exame do Estado Mental), as crianças da escola particular urbana, com IMC adequado (14,3 a 16,6), alcançaram as maiores pontuações, entre 23 e 29 pontos.

O ciclo silencioso da desnutrição e seu impacto cerebral

A pesquisa, de caráter transversal e descritivo, vai além da constatação numérica. Ela demonstra que a desnutrição infantil, caracterizada pela ingestão insuficiente de nutrientes essenciais, é um problema multifatorial e persistente, especialmente em regiões de vulnerabilidade como as comunidades ribeirinhas e rurais da Amazônia. Durante a introdução do estudo, os autores citam a literatura ao lembrar que os primeiros anos de vida são críticos para o desenvolvimento cerebral. A carência de macro e micronutrientes, como ferro, zinco e vitaminas do complexo B, está associada negativamente à formação das estruturas neurais e à plasticidade sináptica.

“Crianças com alimentação inadequada apresentam dificuldades na assimilação de conteúdos, sendo a fome um fator que reduz a concentração”, destacam os autores com base em referências consolidadas. O estudo observou que as crianças da zona rural tiveram maior dificuldade em tarefas que exigiam atenção sustentada, memória de curto prazo e orientação espacial – funções cognitivas essenciais para a alfabetização e o sucesso escolar futuro.

A pesquisa também reforça o papel do ambiente familiar como determinante. O grau de escolaridade dos responsáveis esteve diretamente associado aos melhores resultados: crianças cujos pais tinham maior nível de instrução apresentaram melhor estado nutricional e estímulo cognitivo em casa. Fatores como baixa renda familiar, saneamento básico precário e acesso limitado aos serviços de saúde agravam o ciclo da desnutrição, criando uma barreira quase intransponível para o desenvolvimento pleno.

Abismo social e a necessidade de políticas intersetoriais

Os dados coletados no município de Baião, no Baixo Tocantins, revelam um retrato do abismo socioeconômico brasileiro. Enquanto a escola privada urbana oferecia infraestrutura adequada e profissionais qualificados, a realidade rural era marcada por limitações. Segundo os autores, o ambiente escolar e familiar mostrou-se um fator determinante, e as disparidades observadas exigem uma resposta que não pode ser apenas paliativa.

Diante desse cenário, os pesquisadores reforçam a urgência de políticas públicas intersetoriais. “Estratégias como o fortalecimento da merenda escolar, incentivo à agricultura familiar, ampliação da atenção básica à saúde e investimentos na educação podem contribuir significativamente para o desenvolvimento integral das crianças”. A pesquisa aponta que ações isoladas são insuficientes; é necessário um pacto entre saúde, educação e assistência social para quebrar o ciclo da desnutrição.

Os autores são incisivos: a vulnerabilidade das crianças da zona rural é maior em todos os aspectos – nutricional e cognitivo. Os autores destacam, contudo, que, por se tratar de um estudo transversal, não é possível estabelecer causalidade definitiva, mas sim associações fortes entre o estado nutricional e o desempenho cognitivo. Eles recomendam que futuras pesquisas ampliem a amostra e incluam o controle de variáveis como anemia, parasitoses e o nível de estimulação precoce no ambiente doméstico.

Sobre os autores e a publicação

Endrio Benedito Ribeiro Tavares – Pesquisador vinculado à Universidade do Estado do Pará (UEPA), Cametá, Brasil.
Francielle Bonet Ferraz – Pesquisadora vinculada à Universidade do Estado do Pará (UEPA), Marabá, Brasil.

🔗 Acesse a obra original: Desnutrição infantil e saúde em comunidades rurais do Baixo Tocantins – Texto completo

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