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Quedas inexplicáveis e mudança de comportamento: o desafio do diagnóstico da Paralisia Supranuclear Progressiva

Publicado em: 27 de abril de 2026 – 17h40 (Horário de Brasília)

A paralisia supranuclear progressiva é uma doença rara do cérebro, frequentemente confundida com o mal de Parkinson. Um novo relato de caso publicado na Revista Sociedade Científica (2026) acompanhou um paciente de 67 anos por mais de um ano, revelando que quedas repetidas, alterações explosivas de comportamento e ausência de resposta à levodopa podem ser pistas centrais para o diagnóstico correto, ainda negligenciado na prática clínica brasileira.

Imagine um homem de 67 anos, antes ativo, que ajudava em pequenos reparos dentro de uma instituição de longa permanência, participava de oficinas artesanais e mantinha independência para as atividades diárias. Em poucos meses, ele passa a cair ao levantar da cama sem explicação. Depois, surgem tremores finos, irritabilidade extrema, episódios de agressividade e até desinibição sexual – algo completamente fora de seu perfil comportamental habitual. Este é o retrato do paciente descrito no artigo “Espectro clínico da paralisia supranuclear progressiva: relato de caso”, de autoria de Danilo Henrique Roratto e Tainá de Sousa Mascarenhas, publicado na edição atual (2026) da Revista Sociedade Científica.

O que é a paralisia supranuclear progressiva (PSP)?

A paralisia supranuclear progressiva é uma taupatia primária – ou seja, uma doença neurodegenerativa causada pelo acúmulo anormal da proteína tau nos neurônios. Diferente do Parkinson clássico, a PSP afeta predominantemente regiões do tronco cerebral e gânglios da base, provocando rigidez axial (do tronco), quedas precoces e paralisia do olhar vertical. Sua prevalência é estimada entre 5 e 7 casos a cada 100 mil habitantes, sendo cerca de dez vezes mais rara que a doença de Parkinson. O grande problema, alertam os autores, é o subdiagnóstico: muitos pacientes permanecem com diagnósticos errados por anos, perdendo a oportunidade de manejo adequado.

Quedas como “evento sentinela”

No caso em questão, a primeira queda ocorreu em agosto de 2024, imediatamente após o paciente levantar-se da cama. Não havia tontura, desmaio ou qualquer causa externa. Até dezembro do mesmo ano, as quedas se tornaram frequentes, exigindo idas repetidas ao pronto-socorro. Os médicos responsáveis pelo relato destacam um sinal clínico importante: o chamado “rocket sign” (sinal do foguete), no qual o paciente apresenta impulsividade motora e levanta-se rapidamente, desencadeando a queda. Esse fenômeno precursonem sempre é identificado, mas é característico da PSP.

Com o avanço da doença, o paciente desenvolveu rigidez axial proeminente, redução da mímica facial (cara de “máscara”), disartria hipocinética (fala monótona e de difícil compreensão) e disfagia orofaríngea, dificuldade para engolir, que é um marcador de pior prognóstico. Segundo os autores, a instabilidade postural ocorrendo dentro do primeiro ano de sintomas é um forte preditor diagnóstico de PSP, diferentemente do Parkinson, onde quedas significativas costumam surgir tardiamente.

O olhar que não desce: a oftalmoparesia supranuclear

Um dos marcos da paralisia supranuclear progressiva é a dificuldade para mover os olhos na vertical, especialmente para baixo. No paciente, a oftalmoparesia vertical foi identificada por volta de novembro de 2025, mas ele já apresentava uma compensação: levantava a cabeça para enxergar planos inferiores. Um dado fundamental é que o reflexo vestíbulo-ocular (movimento reflexo dos olhos ao mover a cabeça) permaneceu preservado, o que confirma a origem supranuclear do problema (acima dos núcleos dos nervos oculomotores). Esse achado, junto com a ausência de resposta sustentada à levodopa, ajudou a fechar o diagnóstico clínico.

Exames de imagem e a importância de excluir outras causas

Ressonâncias magnéticas de encéfalo realizadas em dezembro de 2024 e novembro de 2025 mostraram apenas atrofia difusa leve e alterações microangiopáticas inespecíficas. Não havia atrofia do mesencéfalo, um achado que pode aparecer em alguns pacientes, mas que, segundo a literatura discutida pelos autores, não é obrigatório para o diagnóstico. O grande achado incidental foi um hematoma subdural frontotemporoparietal esquerdo, em fase subaguda tardia, consequência direta das quedas repetidas. Esse dado reforça o risco de traumatismos cranianos nessa população e a necessidade de medidas protetivas precoces.

Por que não é doença de Parkinson?

Os principais diagnósticos diferenciais incluem doença de Parkinson, degeneração corticobasal, atrofia de múltiplos sistemas e demência com corpos de Lewy. O artigo aponta elementos que afastam cada uma dessas hipóteses: ausência de resposta sustentada à levodopa e instabilidade postural precoce tornam o Parkinson clássico pouco provável; ausência de sinais corticais focais (como apraxia ou mão alheia) contra a degeneração corticobasal; ausência de disautonomia significativa (como hipotensão ortostática grave) afasta atrofia de múltiplos sistemas; e a falta de alucinações visuais típicas e flutuação cognitiva reduz a chance de demência com corpos de Lewy. O conjunto de achados é compatível com o fenótipo mais clássico: a PSP-Richardson.

Tratamento e evolução: o que esperar

Atualmente não há cura para a PSP, e o tratamento é sintomático. Alguns pacientes podem ter uma resposta inicial discreta à levodopa, como ocorreu com o paciente do relato, mas esse benefício não é sustentado e, em alguns casos, pode até piorar o equilíbrio. A equipe multidisciplinar focou em medidas de segurança (uso de andador, adaptações ambientais), manejo comportamental e suporte para disfagia. A evolução da PSP-Richardson é tipicamente rápida, com perda funcional significativa em poucos anos. A presença de disfagia precoce é considerada um marcador de pior prognóstico.

O grande valor do relato, segundo os autores, está em chamar a atenção para sinais precoces – quedas inexplicáveis associadas a alterações comportamentais frontais – e reforçar que o diagnóstico da PSP é essencialmente clínico, baseado nos critérios da Sociedade de Transtornos do Movimento (MDS), que exigem idade acima de 40 anos, curso esporádico e exclusão de outras causas estruturais.

Destaques das considerações finais

  • Reconhecimento precoce é crucial: instabilidade postural, quedas frequentes e alterações comportamentais (apatia, desinibição, impulsividade) devem acionar o alerta para PSP, mesmo na ausência de paralisia do olhar vertical no início.
  • Resposta negativa à levodopa: ausência de melhora sustentada com levodopa é um sinal vermelho importante, diferenciando a PSP do Parkinson.
  • Diagnóstico clínico: exames de imagem e eletroencefalograma ajudam a excluir outras doenças, mas não existem biomarcadores definitivos – o olhar atento do neurologista continua sendo a principal ferramenta.
  • Contribuição para a literatura nacional: apesar da ampla descrição internacional, há escassez de relatos brasileiros, e este caso ajuda a aumentar a familiaridade dos clínicos com essa condição rara.

📄 Autores e vínculos institucionais:

Danilo Henrique Roratto – Centro Universitário Integrado, Campo Mourão, Brasil.
Tainá de Sousa Mascarenhas – Centro Universitário Integrado, Campo Mourão, Brasil.

O relato completo está disponível na Revista Sociedade Científica – periódico multidisciplinar de acesso livre que publica artigos originais, relatos de caso e revisões. A Revista também oferece espaço para pesquisadores divulgarem seus achados com edição atual (2026) e edições recentes como 2025 e 2024. Você pode pesquisar na Revista por outros artigos da área da saúde e neurociências.

🔍 Link direto para o artigo original (obra anexada): https://www.scientificsociety.net/2026/04/espectro-clinico-da-paralisia-supranuclear-progressiva-relato-de-caso/


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