Coleção de ossos humanos em Sergipe revela traumas, próteses e cálculo biliar em estudo inédito


 

Coleção de ossos humanos em Sergipe revela traumas, próteses e cálculo biliar em estudo inédito

📅 Publicado em 18 de abril de 2026 | 🕘 09h02 (horário de Brasília)

Uma coleção de vinte esqueletos humanos identificados, mantida no Instituto Federal de Sergipe (IFS), Campus São Cristóvão, acaba de ser analisada detalhadamente por pesquisadores brasileiros. Os ossos contam histórias silenciosas de violência, envelhecimento, avanços cirúrgicos e até mesmo problemas metabólicos. O estudo, publicado na Revista Sociedade Científica (DOI: 10.61411/rsc2026126019), revela desde fraturas cranianas cicatrizadas até duas próteses ortopédicas de fêmur perfeitamente integradas, além de um achado raro: uma pedra de vesícula biliar encontrada junto aos restos mortais. Para a ciência brasileira, que carece de coleções osteológicas de referência própria, este trabalho representa um passo essencial para construir perfis bioantropológicos mais precisos, especialmente na região Nordeste.

“A osteologia é como ler um livro escrito nos ossos”, explica a autora principal Nely Souza de Oliveira, pesquisadora do IFS. “Cada fratura curada, cada prótese, cada dente perdido, tudo isso nos ajuda a entender não só a morte, mas sobretudo a vida, as condições de saúde e até as desigualdades sociais de populações passadas.” O estudo, que combinou limpeza química, catalogação rigorosa e análise macroscópica com dupla avaliação independente das lesões, destaca a urgência de valorizar acervos osteológicos nacionais em um país de alta miscigenação, onde padrões estrangeiros muitas vezes não se aplicam.

🔍 O que os ossos contam? Traumas, próteses e cabelos preservados

A coleção osteológica humana (COH) do IFS é composta por 20 esqueletos identificados, com nome, data de nascimento e óbito, doados pela Empresa Municipal de Serviços Urbanos (EMSURB) de Aracaju, conforme a Lei nº 8.501/1992. A distribuição entre sexos é equilibrada (10 homens, 10 mulheres), e a idade varia desde menores de 40 anos até indivíduos com mais de 80 anos. A média de ossos por esqueleto foi de aproximadamente 124,7, número influenciado pelo estado de preservação: ossos longos como fêmur e úmero resistiram melhor, enquanto estruturas mais frágeis apresentaram corrosão e fragmentação, um fenômeno já descrito na literatura tafonômica.

Entre os achados mais impressionantes, destaca-se o indivíduo 7, que possuía duas próteses ortopédicas nos dois fêmures, com claros sinais de osseointegração, indicando que o paciente sobreviveu por um período significativo após cirurgias complexas. Ao lado desse mesmo esqueleto, os pesquisadores localizaram um cálculo biliar (pedra na vesícula), evidência de patologia metabólica ou dietética que amplia o olhar para além do tecido ósseo. “Não é todo dia que encontramos uma prótese de quadril bem-sucedida e uma colelitíase associada ao mesmo indivíduo. Isso humaniza a ciência e mostra a complexidade do cuidado médico no passado recente”, comenta os autores.

📌 Trauma e violência registrados nos crânios

Dois crânios apresentaram lesões contundentes. O indivíduo 18 mostra uma fratura craniana cicatrizada nos ossos frontal e parietal, sinal de agressão ou acidente não fatal. Já o indivíduo 12 exibe uma perfuração craniana com fratura na região facial, sugerindo possível causa mortis violenta. “A diferença entre um trauma ante mortem e perimortem é crucial para a antropologia forense. Os autores conseguiram identificar remodelamento ósseo em um caso e ausência de cicatrização no outro”.

Na dentição, mais da metade dos indivíduos apresentava ausência completa dos dentes, com intensa reabsorção alveolar — indicando perda dentária ocorrida muitos anos antes da morte. Porém, o indivíduo 9 usava uma prótese dentária completa, revelando acesso (público ou privado) a tratamentos odontológicos. Cabelos preservados e adipocera (substância gordurosa derivada da decomposição) ainda aderiam aos ossos do quadril de alguns esqueletos, um achado que ajuda a entender as condições de sepultamento.

📊 Por que essa coleção importa para o Brasil e para a ciência forense

No mundo, coleções osteológicas identificadas são a base para o desenvolvimento de métodos de estimativa de sexo, idade, ancestralidade e estatura. No Brasil, a escassez de acervos documentados força peritos e antropólogos a utilizar padrões internacionais, frequentemente inadequados para uma população miscigenada como a brasileira. O estudo reforça que mesmo uma coleção de porte médio, como a do IFS, oferece variabilidade anatômica e patológica suficiente para treinamento de estudantes e validação de protocolos forenses.

“A presença de porosidade nas extremidades de fêmures e tíbias, associada a indivíduos idosos, corrobora a ocorrência de doenças degenerativas como osteoartrite e osteoporose. Esses são marcadores importantes para a bioarqueologia e para a compreensão do envelhecimento populacional no Nordeste”, explicam os autores no artigo. Além disso, os ossos da coleção passaram por processo de envernizamento e acondicionamento em gavetas individualizadas por categoria anatômica, garantindo a preservação didática e científica do material.

O trabalho também aponta limitações: o envernizamento impede análises posteriores de DNA, isótopos ou microscopia eletrônica. Porém, para os objetivos de caracterização macroscópica e curadoria, a técnica foi considerada adequada.

📌 Um passo à frente para a bioantropologia regional

Os pesquisadores concluem que, apesar do tamanho reduzido da amostra (20 indivíduos), a COH do IFS – Campus São Cristóvão apresenta uma diversidade expressiva de características anatômicas e patológicas. A identificação de traumas cicatrizados, próteses ortopédicas, porosidades ósseas, ausência dentária e até cálculo biliar enriquece o entendimento das condições de vida e morte da população sergipana. O estudo ressalta a necessidade de ampliar acervos osteológicos no Nordeste, região com menor representatividade científica, e fornece uma base consistente para futuras investigações em antropologia forense e bioarqueologia.

“Nosso intuito é mostrar que cada coleção, por menor que seja, tem um valor inestimável para a ciência brasileira. Os ossos não são apenas restos mortais,  são repositórios de memória biológica, social e médica”, finaliza a equipe.

👩‍🔬 Sobre os autores

Nely Souza de Oliveira – Instituto Federal de Sergipe (IFS), Campus São Cristóvão.
Maria José Rosendo da Costa – Instituto Federal de Sergipe (IFS), Campus São Cristóvão.
Juliano Silva Lima – Instituto Federal de Sergipe (IFS), Campus São Cristóvão.

📄 O estudo foi publicado na Revista Sociedade Científica, periódico multidisciplinar de acesso aberto que promove a divulgação de pesquisas nas áreas da saúde, ciências biológicas e humanas. A revista tem se consolidado como um espaço democrático e rigoroso para a comunicação científica brasileira.

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📖 ACESSO À OBRA ORIGINAL:
Leia o artigo completo “Caracterização osteológica do acervo ósseo humano do Instituto Federal de Sergipe” por Oliveira NS, Costa MJR, Lima JS. Revista Sociedade Científica, vol.9, n.1, p.817-835, 2026.
🔗 Clique aqui para acessar o artigo completo | DOI: 10.61411/rsc2026126019
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