Cirurgia de catarata devolve autonomia e autoestima a idosos, mostra estudo capixaba


 

Cirurgia de catarata devolve autonomia e autoestima a idosos, mostra estudo capixaba

Publicado em 27 de fevereiro de 2026 — 15h02

Uma pesquisa longitudinal conduzida no Hospital da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (HSCMV), no Espírito Santo, acompanhou 184 pacientes submetidos à cirurgia de catarata (facoemulsificação) e revelou impactos profundos na qualidade de vida que vão muito além da recuperação da visão. O estudo, publicado na Revista Sociedade Científica (volume 9, 2026), documentou quedas expressivas na dependência de terceiros, na tristeza e no medo de passar por situações constrangedoras, além de melhora significativa na capacidade de dirigir — especialmente à noite. Os resultados confirmam a cirurgia de catarata como uma intervenção de altíssimo valor social e clínico, sobretudo para a população idosa, que representa a maioria dos afetados pela doença.

O peso silencioso da catarata no envelhecimento

Com o avanço da idade, doenças sensoriais tornam-se mais prevalentes. Dados do IBGE mostram que, em 2022, 15,1% dos brasileiros tinham 60 anos ou mais – um salto em relação a 2012 (11,3%). A catarata, definida como a opacificação do cristalino, é a principal causa de cegueira reversível no mundo. Em 2020, mais de 100 milhões de pessoas viviam com deficiência visual severa ou cegueira devido à doença. A condição compromete o equilíbrio, a percepção de profundidade e a adaptação ao escuro, aumentando o risco de quedas e isolamento.

Até recentemente, muitos idosos deixavam de operar por medo ou falta de acesso. Porém, a facoemulsificação — técnica moderna que utiliza ultrassom para aspirar o cristalino opaco e implantar uma lente intraocular (LIO) — é segura, rápida e com incisão autosselante, podendo ser realizada com anestesia tópica. A pesquisa da Santa Casa de Vitória, liderada pelos pesquisadores Bianca Suaid Soares, Breno Souza Leite, Letícia Cerqueira Checon, Marcos Guilherme Bedim Trancoso e Bruno de Freitas Valbon, quantificou esses ganhos de forma robusta.

Metodologia: VFQ‑25 antes e depois

O estudo acompanhou os pacientes durante nove meses, aplicando o questionário adaptado VFQ‑25 (National Eye Institute Visual Function Questionnaire) nos períodos pré e pós‑cirúrgico. O instrumento avalia saúde geral, percepção visual, sintomas oculares e dificuldades em atividades diárias. A amostra foi composta por homens e mulheres com média de idade de 67,2 anos, atendidos no serviço de oftalmologia do HSCMV entre abril e dezembro de 2024. Foram excluídos pacientes com cirurgias oftalmológicas prévias ou déficits neurológicos que impossibilitassem a entrevista.

A análise estatística utilizou o teste não paramétrico de Wilcoxon, adequado para dados sem distribuição normal. Os resultados comparativos foram taxativos: melhora acentuada em todos os domínios.

Resultados que emocionam: do “cego social” à reinserção

Visão corrigida: antes da cirurgia, nenhum paciente classificava sua visão como excelente, e apenas 5,4% como boa. Após o procedimento, 44% passaram a considerar a visão excelente e 52,7% boa. As avaliações “ruim” ou “muito ruim”, que somavam 40,8% no pré‑operatório, simplesmente zeraram.

Preocupação e sintomas: a preocupação constante com a visão caiu de 22,8% para 2,1%. Desconfortos como queimação e dor (considerados fortes ou muito fortes) desapareceram completamente (de 2,7% para 0%).

Vida social e autonomia: a tristeza frequente relacionada à visão despencou de 34,8% para 6,5%. A dependência de ajuda de outras pessoas — relatada por metade dos pacientes antes da cirurgia — foi revertida: 98,4% passaram a precisar de ajuda apenas “poucas vezes” ou “nunca”. O medo de passar vergonha (como entrar no banheiro errado ou não reconhecer pessoas) afetava 9,2% com alguma frequência; depois, apenas 1,6% ainda sentia isso “de vez em quando”.

Visão periférica e mobilidade: antes da cirurgia, 44,6% referiam prejuízo na visão periférica; no pós‑operatório, 79,9% relataram melhora. A dificuldade para ler placas na rua ou letreiros de ônibus, que atingia 53,9% dos pacientes, caiu para 0,5% (apenas uma pessoa ainda deixava de fazer por causa da visão). Descer escadas, reconhecer rostos do outro lado da rua e cozinhar também apresentaram ganhos notáveis.

Dirigir: dos 184 pacientes, 55 dirigiam. Entre estes, a dificuldade para dirigir à noite reduziu‑se drasticamente. A maioria recuperou a confiança ao volante, um componente essencial para a independência em cidades com transporte público escasso.

Benefícios cognitivos e emocionais: o que a ciência explica

Os autores dialogam com a literatura internacional para explicar os achados. A deficiência visual está associada a maior declínio cognitivo, pois reduz a estimulação cerebral e o convívio social. Um estudo de coorte taiwanês (Yen et al., 2022) mostrou que idosos com baixa visão têm maior risco de comprometimento cognitivo leve. Ao restaurar a visão, a cirurgia de catarata alivia a “carga cognitiva” e reativa redes neurais ligadas à memória e à interação. Revisão sistemática (Nagarajan et al., 2022) e meta‑análise (Li & Zhu, 2024) reforçam que a operação reduz o risco de demência. No aspecto mental, a redução de sintomas depressivos e ansiosos foi contundente, alinhando‑se ao que Almidani (2024) descreve como “determinante social da saúde mental”.

Muito além da acuidade visual

Os pesquisadores concluem que a cirurgia de catarata proporciona uma “verdadeira revolução na vida dos pacientes”. A eliminação quase total das respostas extremas de limitação (categorias “sempre” e “a maioria das vezes” caíram a zero ou a valores residuais) demonstra que o procedimento, quando realizado em tempo oportuno — como ocorreu no HSCMV, antes da evolução para estágios avançados —, restaura a funcionalidade plena. A melhora da autoestima, a volta ao trabalho e às atividades de lazer e a reconquista da independência são ativos imateriais, mas de valor inestimável para o idoso e sua família.

Autores do estudo

  • Bianca Suaid Soares — Santa Casa de Misericórdia de Vitória (HSCMV) / EMESCAM.
  • Breno Souza Leite — HSCMV / EMESCAM.
  • Letícia Cerqueira Checon — HSCMV / EMESCAM.
  • Marcos Guilherme Bedim Trancoso — HSCMV / EMESCAM.
  • Bruno de Freitas Valbon — HSCMV / EMESCAM (orientador).

Pesquisa realizada no serviço de oftalmologia do Hospital da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (ES), com apoio do Comitê de Ética (Parecer 6.727.209).

🔗 Acesso à obra original: Impacto da cirurgia de catarata na qualidade de vida – estudo longitudinal (DOI: 10.61411/rsc2026113819)

🔬 Artigo publicado na Revista Sociedade Científica — periódico multidisciplinar com foco em ciências da saúde, naturais, educação, engenharias e humanidades.

📝 Publique seu artigo científico

A Revista Sociedade Científica aceita submissões contínuas em diversas áreas: Ciências da Saúde, Educação, Engenharias, entre outras. Siga o tutorial de 4 passos e conheça as vantagens de publicar conosco: indexação, visibilidade internacional e revisão por pares qualificada.

📚 Publique capítulos de livro ou resumos científicos

A revista lançou uma nova seção dedicada a Livros Científicos e Resumos. Uma oportunidade para autores consolidados expandirem seu legado acadêmico. Saiba mais na notícia “Publicação de Livros Científicos: uma nova seção” e entenda como capítulos de livro podem impulsionar sua carreira.

📰
— Siga nossas notícias no Google Notícias!

🗺️ Mapa do site: https://www.scientificsociety.net/ | A Revista Sociedade Científica disponibiliza acesso aberto a todos os artigos, com política de ética rigorosa e incentivo à ciência aberta.


Veja os Artigos recentes noticiados pela Revista:

ASPECTOS JURÍDICOS DA ÁGUA: UMA ABORDAGEM CONSTITUCIONAL, PRINCIPIOLÓGICA E LEGAL DOS RECURSOS HÍDRICOS

ASPECTOS JURÍDICOS DA ÁGUA: UMA ABORDAGEM CONSTITUCIONAL, PRINCIPIOLÓGICA E LEGAL DOS RECURSOS HÍDRICOS Erivaldo Cavalcanti e Silva Filho, Wallace Ferreira Carvalhosa RESUMO A água é…

Saiba mais
A NATUREZA DO MOMENTO ANGULAR ORBITAL DO FÓTON COMO PROPRIEDADE DA INTERAÇÃO FÓTON-MATÉRIA

A NATUREZA DO MOMENTO ANGULAR ORBITAL DO FÓTON COMO PROPRIEDADE DA INTERAÇÃO FÓTON-MATÉRIA Daniel Souza Cardoso RESUMO Realizou-se uma breve revisão do estado da arte…

Saiba mais
ANÁLISE DOS AUMENTOS RELATIVO E MENSAL DAS CHUVAS NO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL,…

ANÁLISE DOS AUMENTOS RELATIVO E MENSAL DAS CHUVAS NO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL, BRASIL Daniel Souza Cardoso, Gilberto Barbosa Diniz, João Baptista da…

Saiba mais
O CRESCIMENTO DA TECNOLOGIA WIMAX

O CRESCIMENTO DA TECNOLOGIA WIMAX Mauricio S. Ortiz, Christian Rosa Dias RESUMO O presente artigo é uma revisão bibliográfica com o objetivo de apresentar um…

Saiba mais
O MOVIMENTO COMPOSTO SEGUNDO DIÁLOGO DE GALILEU, INTRODUZIDO ATRAVÉS DO LANÇAMENTO DE PROJÉTEIS

 Sabrina Lopes Xavier, Felipe Grillo, Carlos Henrique Pagel,  Daniel Souza Cardoso, Júlio Damasceno   RESUMO  Atualmente muitos educadores tem percebido a importância de realizar aulas práticas como recurso metodológico…

Saiba mais



wpChatIcon
wpChatIcon
Translate »