Praias de Caraguatatuba sob alerta: estudo revela presença de helmintos na areia; pesquisadores apontam risco à saúde pública
Publicado em 23 de fevereiro de 2026, às 11:02 (Horário de Brasília)
A areia das praias não é apenas um espaço de lazer; pode ser também um reservatório de parasitas com potencial zoonótico. Foi o que constatou a investigação realizada pelos cientistas Rafael Picoli Martins e Karolina Marie Alix Benedictte Van Sebroeck Dória, ambos vinculados ao Centro Universitário Módulo (Caraguatatuba-SP). O objetivo do trabalho foi identificar a diversidade de helmintos em duas das praias mais frequentadas do litoral norte paulista: Indaiá e Martin de Sá.
O período de coleta abrangeu os meses de abril, maio, agosto, setembro e outubro de 2024, totalizando cinco campanhas e 50 amostras — 25 por praia. Em laboratório, os pesquisadores aplicaram o protocolo de Rugai adaptado para solo arenoso, metodologia consolidada para detecção de ovos e larvas de helmintos. A identificação das espécies seguiu o manual da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Três espécies de parasitas na areia: o que isso significa?
Os resultados mostraram que a Praia do Indaiá apresentou 40% de positividade, enquanto a Martin de Sá registrou 24%. Ao todo, foram identificadas três espécies: Ancylostoma spp. (o mais prevalente, com 25 ocorrências em Indaiá e 15 em Martin de Sá), Strongyloides stercoralis (presente nas duas praias) e Ascaris lumbricoides (apenas na Praia do Indaiá). A tabela abaixo, adaptada do artigo original, detalha esses números.
| Parasita | Praia do Indaiá | Praia Martin de Sá |
|---|---|---|
| Ancylostoma spp. | 25 | 15 |
| Ascaris lumbricoides | 1 | 0 |
| Strongyloides stercoralis | 1 | 2 |
A presença de Ancylostoma spp. é particularmente preocupante: o parasita causador da ancilostomíase (amarelão) pode penetrar ativamente na pele humana, levando à larva migrans cutânea (bicho-geográfico). Já Strongyloides stercoralis e Ascaris lumbricoides são agentes de infecções intestinais graves, transmitidas pela ingestão ou penetração de larvas presentes no solo contaminado.
Por que isso acontece em Caraguatatuba?
A pesquisa aponta uma causa provável: a presença constante de cães nas praias, mesmo com placas proibindo o acesso desses animais. Como destacam os autores, “não há um programa para controlar a presença destes animais, evidenciando um fator de risco para a saúde pública”. Os cães atuam como reservatórios naturais de vários helmintos, eliminando ovos e larvas nas fezes depositadas na areia. Condições ambientais como temperatura e umidade — em Caraguatatuba o clima é tropical (Af, segundo Köppen), com médias térmicas elevadas e chuvas frequentes — favorecem o desenvolvimento e a sobrevivência das formas infectantes no solo.
Estudos similares reforçam esses achados. Calvopina et al. (2023) encontraram 27,4% de positividade em praias turísticas do Equador, com predomínio de Ancylostoma spp. (19,4%). No Brasil, Ramos et al. (2022) detectaram ovos da família Ascarididae em 47,6% das amostras de praias da região metropolitana do Recife. Esses números evidenciam que a contaminação por parasitas de solo não é um problema isolado, mas uma questão de saúde pública em escala nacional e global.
O que dizem os autores e especialistas
Os autores lembram que as geo-helmintíases (ascaridíase, tricuríase e ancilostomíase) afetam milhões de pessoas no mundo, causando anemia, desnutrição e comprometimento do desenvolvimento infantil, como descrevem Bethony et al. (2006) em publicação na revista The Lancet. No contexto local, Martins e Dória alertam: “A presença de três espécies de helmintos nas praias de Caraguatatuba representa um problema potencial de saúde pública, uma vez que ao menos dois grupos podem causar infecções parasitárias em moradores e turistas”.
Eles ainda enfatizam que o estudo oferece subsídios para que as autoridades locais e tomadores de decisão em saúde pública possam embasar políticas de controle, como a efetiva fiscalização da entrada de animais, campanhas educativas e monitoramento periódico da qualidade sanitária das areias.
Um alerta que pede ação
O artigo conclui que a areia das praias estudadas não pode ser considerada totalmente segura do ponto de vista parasitológico. A pesquisa, inédita na região com esse recorte, cumpre um papel crucial ao dar visibilidade a um risco invisível. Apesar de não apresentar soluções imediatas, oferece evidências robustas para que medidas preventivas sejam implementadas.
Em tempo: o trabalho foi publicado na edição de 2026 da Revista Sociedade Científica, periódico com foco em ciências da saúde, e está disponível gratuitamente para consulta.
📘 Revista Científica: O artigo foi publicado na Revista Sociedade Científica, uma plataforma dedicada à divulgação de pesquisas originais em diversas áreas do conhecimento. A obra integra o volume 9, número 1, de 2026.
Mostra da Revista |
Edição 2025 |
Edição 2024 |
Pesquisar na Revista
Veja os Artigos recentes noticiados pela Revista:
