Estudo alerta sobre prescrição excessiva de antibióticos em tratamentos de canal e reforça eficácia de anti-inflamatórios
Anti-inflamatórios: a base do controle da dor
O estudo destaca a eficácia comprovada dos anti-inflamatórios, tanto esteroidais quanto não esteroidais (AINEs), no controle dessa dor. Corticosteroides como a dexametasona, quando administrados por via oral ou local (intraligamentar/submucosa) no pré ou pós-operatório, mostraram-se eficazes na redução significativa da dor, com efeito que pode se estender por até 48 horas.
Entre os AINEs, medicamentos como ibuprofeno, naproxeno e diclofenaco apresentaram resultados comparáveis, especialmente quando associados a analgésicos como o paracetamol. Combinações como paracetamol + ibuprofeno demonstraram desempenho superior ao placebo, reduzindo a necessidade de medicação de resgate. A revisão também menciona estratégias não farmacológicas adjuvantes, como ajuste oclusal e laser de baixa potência, que podem diminuir a dependência de fármacos.
Antibióticos: indicação restrita e um problema de prescrição
O ponto mais crítico abordado pela pesquisa é a indicação racional de antibióticos. A revisão é taxativa: antibióticos não têm efeito analgésico e seu uso não previne “flare-ups” quando prescritos de forma indiscriminada. Sua indicação deve ser reservada para situações específicas que envolvam sinais sistêmicos de disseminação da infecção, como febre, mal-estar geral, edema difuso ou em pacientes imunocomprometidos.
No entanto, os dados compilados revelam uma realidade alarmante:
- Mais de 84% dos casos de abscesso periapical recebem prescrição inadequada de antibióticos.
- Mais de 43% dos casos de pulpite irreversível são tratados com antibióticos sem indicação clínica.
- Aproximadamente 60% de estudantes e clínicos gerais prescrevem antibióticos em situações desnecessárias.
Essa prática, além de não beneficiar o paciente, é um dos fatores que impulsionam a resistência bacteriana, um dos maiores desafios da saúde global contemporânea. A revisão aponta que endodontistas especialistas tendem a prescrever menos antibióticos do que clínicos gerais, destacando a importância da educação continuada e da adoção de diretrizes clínicas claras.
Destaques e Diretrizes
Em suas considerações finais, o artigo publicado na Edição de 2026 da Revista Sociedade Científica conclui que o manejo bem-sucedido da dor e da infecção em endodontia deve ser fundamentado em um tripé:
- Técnica operatória adequada: limpeza e desinfecção mecânica eficaz do sistema de canais radiculares.
- Diagnóstico preciso: para diferenciar dor inflamatória de condições que realmente demandam terapia antimicrobiana sistêmica.
- Farmacologia racional: uso prioritário de anti-inflamatórios para controle da dor e restrição severa de antibióticos às indicações verdadeiras.
A mensagem central é de que a maioria das infecções endodônticas pode e deve ser resolvida com intervenções locais (drenagem, instrumentação e irrigação), sendo o antibiótico um coadjuvante em casos muito específicos.
Autora e Instituição do Estudio
Nicole Cristina Domingues
Universidade São Francisco, Bragança Paulista-SP, Brasil.
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