Pesquisa revisa evidências e aponta potencial de planta brasileira no tratamento de feridas diabéticas
Publicado em: 2 de fevereiro de 2026 às 18:32 (Horário de Brasília)
Um artigo de revisão publicado na Revista Sociedade Científica apresenta um panorama promissor para o uso da Alternanthera brasiliana – conhecida popularmente como terramicina – na recuperação de feridas em pacientes com diabetes mellitus. O trabalho, realizado pelos pesquisadores Melyssa de Oliveira Vieira, Marcelo Silva Almeida Filho e Karolina Marie Alix Benedictte Van Sebroeck Dória, sintetiza achados pré-clínicos que indicam que extratos da planta podem modular a inflamação, reduzir o estresse oxidativo e estimular a formação de novos vasos sanguíneos, mecanismos essenciais para a cicatrização, que é frequentemente comprometida pelo diabetes. A publicação, que integra a Edição Atual (2026) da revista, destaca a necessidade de avançar para estudos clínicos que validem a segurança e eficácia em humanos, abrindo caminho para novas abordagens terapêuticas baseadas na rica biodiversidade nacional.
As feridas crônicas, em especial as úlceras do pé diabético, representam um grave problema de saúde pública, afetando milhões de pessoas em todo o mundo. Estima-se que até 25% dos indivíduos com diabetes desenvolverão uma úlcera ao longo da vida, com um risco significativo de infecções graves e amputações. A cicatrização deficiente nesses pacientes é um processo complexo, prejudicado pela hiperglicemia crônica, inflamação persistente, estresse oxidativo elevado e uma angiogênese (formação de novos vasos) insuficiente.
Diante das limitações e custos elevados de muitas terapias convencionais, a busca por alternativas eficazes e seguras tem levado a ciência a investigar o potencial da medicina tradicional e dos produtos naturais. É neste contexto que a Alternanthera brasiliana, uma planta amplamente utilizada na cultura popular para tratar feridas e inflamações, ganha destaque em laboratórios de pesquisa.
O artigo “Alternanthera brasiliana (Terramicina) na recuperação tecidual em Diabetes Mellitus“, publicado no volume 9, número 1 da Revista Sociedade Científica, realizou uma revisão integrativa da literatura científica internacional para compilar e analisar as evidências existentes sobre o tema. A análise foi estruturada em seis eixos principais, oferecendo uma visão abrangente do potencial da planta.
Do ponto de vista fitoquímico, a A. brasiliana se revela uma fonte rica e diversificada de compostos bioativos. Estudos citados na revisão identificaram a presença de flavonoides, fenóis, triterpenos, saponinas, alcaloides e betalainas. Essas substâncias são responsáveis pelas propriedades farmacológicas atribuídas à planta, notadamente suas ações antioxidante, anti-inflamatória e antimicrobiana. A análise por técnicas como LC-MS/MS e GC-MS tem ampliado o conhecimento sobre sua composição, identificando compostos específicos como a betanina, kaempferol e ácido gálico, essenciais para a padronização de futuros medicamentos.
Os mecanismos de ação pelos quais a planta atua na cicatrização são múltiplos e interconectados. Conforme detalhado na publicação, extratos hidroalcoólicos ou metanólicos de A. brasiliana demonstraram capacidade de:
- Modular a resposta inflamatória: Reduzindo a produção de citocinas pró-inflamatórias (como IL-1β) e favorecendo um ambiente mais propício à reparação.
- Combater o estresse oxidativo: Diminuindo os níveis de espécies reativas de oxigênio (ROS) e aumentando a atividade de enzimas antioxidantes endógenas, como superóxido dismutase, catalase e glutationa.
- Promover a angiogênese: Estimulando a formação de novos vasos sanguíneos, um passo crítico para levar nutrientes e oxigênio ao tecido lesionado.
- Estimular a síntese e organizar a matriz extracelular: Favorecendo a deposição de colágeno e modulando a atividade de metaloproteinases (MMPs) e da via de sinalização TGF-β/Smad, que são chave para o remodelamento tecidual sem formação excessiva de fibrose.
As evidências pré-clínicas, obtidas principalmente em modelos animais diabéticos (ratos), são encorajadoras. Os estudos revisados reportam que o tratamento tópico com géis ou pomadas contendo extrato de A. brasiliana resultou em:
- Contração mais rápida da ferida.
- Aceleração da reepitelização (formação de nova pele).
- Aumento da formação de tecido de granulação e deposição de colágeno.
- Maior angiogênese na área lesionada.
Importante destacar que, nos estudos toxicológicos revisados, a planta não apresentou sinais de toxicidade significativa em órgãos como rins, fígado e coração, mesmo em doses elevadas, e nenhum efeito adverso local foi reportado em aplicações tópicas, indicando um perfil de segurança preliminar favorável.
O artigo também explora o futuro do uso terapêutico da A. brasiliana, discutindo a integração de seus extratos em biomateriais avançados. Hidrogéis, nanopartículas e sistemas de encapsulação feitos com polímeros naturais (como quitosana e alginato) surgem como plataformas promissoras. Esses sistemas podem permitir uma liberação controlada e prolongada dos compostos bioativos, aumentar sua estabilidade e potencializar seus efeitos no microambiente complexo da ferida diabética.
Destaques e Caminhos Futuros
Os autores concluem que a Alternanthera brasiliana reúne um conjunto expressivo de evidências científicas pré-clínicas que sustentam seu potencial como um agente terapêutico complementar no tratamento de feridas diabéticas. Sua riqueza fitoquímica e seus múltiplos mecanismos de ação a tornam uma candidata forte para o desenvolvimento de novas formulações.
No entanto, a revisão é enfática ao apontar os desafios para a translação clínica:
- Falta de ensaios clínicos: Ainda não há estudos em humanos para confirmar a eficácia e segurança observadas em animais.
- Necessidade de padronização: A variabilidade natural na composição química da planta exige protocolos rigorosos de extração e controle de qualidade para garantir a reprodutibilidade dos efeitos.
- Integração em terapias multimodais: O uso da planta provavelmente será mais eficaz como parte de uma abordagem integrada, que inclua controle glicêmico, manejo de infecções e outros cuidados.
Assim, a pesquisa publicada na Revista Sociedade Científica não apenas resume um campo de estudo promissor, mas também serve como um chamado para que a comunidade científica avance na investigação clínica rigorosa deste recurso natural, visando transformar o conhecimento tradicional em uma terapia validada que possa beneficiar milhões de pacientes.
Autores do Estudo
- Melyssa de Oliveira Vieira – Centro Universitário Módulo, Caraguatatuba-SP, Brasil
- Marcelo Silva Almeida Filho – Centro Universitário Módulo, Caraguatatuba-SP, Brasil
- Karolina Marie Alix Benedictte Van Sebroeck Dória – Centro Universitário Módulo, Caraguatatuba-SP, Brasil
Sobre a Revista Científica
Este trabalho foi publicado na Revista Sociedade Científica, um periódico dedicado à disseminação de pesquisas originais e de qualidade em diversas áreas do conhecimento. A revista está comprometida com o avanço da ciência por meio de um processo de revisão rigoroso e acesso aberto.
Confira a Edição Atual (2026) da revista, que contém este e outros artigos relevantes. Explore também as edições recentes de 2025 e 2024. Para buscar artigos específicos, utilize a ferramenta de Pesquisa na Revista.
Acesso ao Artigo Original
O artigo completo “Alternanthera brasiliana (Terramicina) na recuperação tecidual em Diabetes Mellitus” está disponível em acesso aberto para leitura e download:
🔗 Link direto: https://www.scientificsociety.net/2026/01/alternanthera-brasiliana-terramicina-na-recuperacao-tecidual-em-diabetes-mellitus/
DOI: 10.61411/rsc2026120819
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