Sucesso virológico não basta: estudo da UFTM revela alta vulnerabilidade clínico-funcional em idosos com HIV

Publicado em: 19 de junho de 2026 às 15h12 (horário de Brasília)

Uma pesquisa conduzida no Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (HC-UFTM) acendeu um alerta importante para o cuidado de pessoas idosas vivendo com HIV. O estudo, publicado na Revista Sociedade Científica, revelou que, embora a maioria dos pacientes mantenha carga viral indetectável e boa adesão à terapia antirretroviral (TARV), a fragilidade clínico-funcional é alarmantemente alta, afetando 84,8% da amostra. A descoberta reforça que o envelhecimento com HIV exige uma abordagem que vai além do controle virológico, demandando avaliação geriátrica multidisciplinar na rotina ambulatorial.

O estudo, intitulado Perfil de vulnerabilidade clínico-funcional em idosos vivendo com HIV: uma análise transversal, avaliou 33 pacientes com idade média de 67 anos, acompanhados no Ambulatório de Especialidades do HC-UFTM. Os pesquisadores Pedro Henrique David Almeida, Guilherme Rocha Pardi, David Sene Oliveira e Gualberto Ruas aplicaram questionários para traçar um perfil detalhado desse grupo, correlacionando dados sociodemográficos, cognitivos e de comorbidades com o índice de vulnerabilidade.

O paradoxo do envelhecimento com HIV

O envelhecimento populacional no Brasil é uma realidade, e com ele surgem novos desafios para a saúde pública. Um desses desafios é o aumento expressivo de diagnósticos de HIV entre pessoas com mais de 60 anos, um grupo frequentemente negligenciado em campanhas de prevenção devido a estigmas sociais que desconsideram sua vida sexual ativa. Paralelamente, os avanços da TARV transformaram o HIV em uma condição crônica, aumentando a expectativa de vida desses pacientes.

O que a pesquisa da UFTM evidencia é que viver mais anos com o vírus não significa, necessariamente, viver com qualidade e funcionalidade. O Índice de Vulnerabilidade Clínico Funcional-20 (IVCF-20), uma ferramenta validada para rastreio rápido de fragilidade em idosos na atenção básica, foi o instrumento chave para essa descoberta. Dos 33 participantes, 84,8% foram classificados com vulnerabilidade moderada a alta, um número que contrasta fortemente com o excelente controle virológico da amostra, onde 75,8% apresentavam carga viral indetectável.

Fragilidade além dos exames laboratoriais

O estudo não parou no IVCF-20. Para uma avaliação mais completa, os pesquisadores utilizaram o Mini Exame do Estado Mental (MEEM) para rastreio cognitivo e o Índice de Comorbidades de Charlson (ICC) para avaliar a carga de outras doenças. Os resultados foram igualmente preocupantes: 48,5% dos idosos pontuaram abaixo de 20 no MEEM, sugerindo um possível declínio cognitivo, e a média do ICC foi de 9,15, sendo ainda maior (10,07) no grupo de alta vulnerabilidade.

A análise estatística, utilizando o teste exato de Fisher, não encontrou associação significativa entre a vulnerabilidade (IVCF-20) e marcadores virais como carga viral (p=0,785), tempo de diagnóstico (p=0,370) ou contagem de linfócitos CD4+ (p=0,942). Isso indica que a fragilidade observada não está diretamente ligada ao status do HIV em si, mas sim a um conjunto de fatores relacionados ao processo de envelhecimento e às comorbidades associadas. O próprio diagnóstico de HIV, que já pontua no ICC, soma-se a outras doenças crônicas típicas da idade, como hipertensão e diabetes, potencializando a vulnerabilidade.

A importância da avaliação geriátrica na rotina ambulatorial

Este estudo demonstra que a maioria dos idosos com HIV/AIDS que participaram da pesquisa apresenta um perfil de vulnerabilidade moderada a alta. Embora não se tenha encontrado uma associação estatística direta entre a vulnerabilidade e a carga viral ou o tempo de infecção, a análise dos dados sugere que a fragilidade desses pacientes pode estar mais relacionada a outros fatores“, apontam os autores.

Os achados reforçam a necessidade urgente de incorporar ferramentas de triagem geriátrica, como o IVCF-20, na rotina de atendimento de pacientes HIV positivos acima de 60 anos. A pesquisa sugere que a avaliação laboratorial, embora crucial para o controle da infecção, é insuficiente para determinar a real capacidade funcional e qualidade de vida do idoso. “É essencial incorporar métodos de triagem geriátrica à rotina ambulatorial e não inferir vulnerabilidade dessa população apenas com métodos laboratoriais”, concluem os autores no artigo.

Limitações e próximos passos

Os pesquisadores destacam que o tamanho amostral (n=33) é uma limitação do estudo, justificada pela logística da coleta de dados, que exigiu a aplicação conjunta de múltiplos testes durante o período de espera no ambulatório. No entanto, os resultados são consistentes e apontam para uma tendência clara. A equipe sugere a condução de investigações futuras com amostras multicêntricas mais robustas para confirmar os achados e aprofundar a compreensão sobre os fatores que influenciam a vulnerabilidade nessa população.

Sobre os autores

  • Pedro Henrique David Almeida – Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)
  • Guilherme Rocha Pardi – Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)
  • David Sene Oliveira – Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)
  • Gualberto Ruas – Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) – Orientador

Publicado na Revista Sociedade Científica, a obra integra a Edição Atual (2026). A revista é um espaço plural para divulgação científica, e você pode conferir as edições recentes, incluindo a Edição 2025 e a Edição 2024. Para encontrar mais pesquisas como esta, utilize a ferramenta de Pesquisa na Revista.