Estudo Revela Porque Patrimônio Subaquático Demorou Séculos para ser Valorizado
Publicado em: 08 de Outubro de 2025
Uma pesquisa publicada na Revista Sociedade Científica analisa as raízes históricas da disparidade entre a proteção do patrimônio arqueológico terrestre e o subaquático, traçando um paralelo desde o Renascimento.
Um estudo pioneiro, intitulado “Entre a terra e o mar: continuidades e descontinuidades da gênese renascentista do patrimônio arqueológico“, lança nova luz sobre a forma como enxergamos e protegemos os vestígios do passado. Publicado na edição de 2025 da Revista Sociedade Científica, o artigo argumenta que, enquanto os artefatos em terra começaram a ser vistos como parte da identidade cultural desde o Renascimento, os itens submersos permaneceram por séculos envoltos em uma aura de “tesouro” a ser resgatado, atrasando drasticamente seu reconhecimento como patrimônio digno de preservação.
Do Lago Nemi às Profundezas: As Origens de uma Disparidade
A pesquisa, conduzida pelo arqueólogo Jader Reis Monteiro da Universidade NOVA de Lisboa – FCSH, em Portugal, toma como ponto de partida as incursões no Lago Nemi, na Itália, no século XV. Lideradas pelo arquiteto e humanista Leon Battista Alberti, essas missões, que contrataram mergulhadores genoveses para resgatar objetos de navios romanos afundados, são frequentemente vistas como prenúncio da arqueologia náutica.
No entanto, o estudo demonstra que, apesar de Alberti buscar compreender a engenharia romana, o objetivo principal dessas atividades ainda estava mais alinhado com uma longa tradição de salvatagem – o resgate de cargas com fins utilitários e comerciais – do que com uma visão de preservação patrimonial. O autor cita trabalhos de referência na área, como os de George Bass, John M. McManamon e Gilson Rambelli, para embasar sua análise.
Uma Semiótica Diferente: Arte versus Tesouro
O artigo desenvolve uma tese central fascinante: durante a modernidade, criou-se uma dicotomia na percepção dos artefatos. Os itens terrestres, como estátuas e inscrições, foram gradualmente sendo associados a “obras de arte” e, posteriormente, à identidade cultural das nações. Já os objetos recuperados da água, mesmo que idênticos, eram vistos predominantemente como “tesouros“.
Essa visão foi alimentada pela própria natureza perigosa e misteriosa do mergulho na época. Técnicas eram guardadas em segredo, e a atividade de salvatagem era cercada por um misticismo heroico. Conforme aponta a pesquisa, citando estudiosos como Antônio Carlos Diegues, essa distinção reflete uma clássica disparidade sociocultural entre o mundo “camponês” (terra) e o mundo dos “pescadores” e “gente do mar” (água), onde a semiótica do objeto era completamente diferente.
Legislação e Reconhecimento Tardio
Enquanto as primeiras leis de proteção ao patrimônio arquitetônico e arqueológico na Europa surgiram já no final do século XVII, como menciona o estudo com base em James K. Reap, o patrimônio cultural subaquático só veio a ser formalmente reconhecido e protegido internacionalmente muitos séculos depois. A pesquisa conclui que essa histórica percepção do fundo do mar como uma fronteira de riquezas a serem exploradas, e não como um sítio arqueológico a ser estudado, é a razão fundamental para essa defasagem na proteção legal.
Considerações Finais e Impacto na Atualidade
Em suas conclusões, o artigo de Jader Reis Monteiro destaca que o caminho percorrido pelo patrimônio terrestre, inclusive seu uso para a construção de identidades nacionais, não foi seguido pelo patrimônio subaquático. Este último permaneceu por muito tempo “fetichizado como tesouro”, o que retardou o desenvolvimento de uma arqueologia subaquática científica, focada no contexto e na preservação, em detrimento do mero resgate de itens valiosos.
O estudo é crucial para entendermos os desafios atuais na preservação de sítios subaquáticos, que ainda hoje sofrem com a pilhagem e a falta de conscientização pública, reforçando a necessidade de políticas específicas e campanhas educativas que mudem essa percepção secular.
Autor e Instituição
- Autor do Artigo Original: Jader Reis Monteiro
- Filiação Institucional: Universidade NOVA de Lisboa – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), Lisboa, Portugal.
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Entre a terra e o mar: continuidades e descontinuidades da gênese renascentista do patrimônio arqueológico
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